Trump faz bullying com adversários criando apelidos agressivos na internet

O personagem "Pateta", da Disney, (ao centro) é usado por Trump como referência a senadora - Divulgação

O personagem “Pateta”, da Disney, (ao centro) é usado por Trump como referência a senadora Imagem: Divulgação

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o “Blog do Kennedy” em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

07/09/2020 04h05

O presidente Donald Trump costuma fazer bullying com os adversários nas redes sociais, dando-lhes apelidos depreciativos, como “Joe Dorminhoco”, ou usando termos agressivos como “perdedores”, “mentirosos” e “otários”. Mas o feitiço se voltou contra o feiticeiro na semana que passou.

Uma reportagem da revista “The Atlantic” relata que Trump se recusou em 2018 a visitar um cemitério em Paris onde jazem americanos que morreram na Primeira Guerra Mundial. Segundo o artigo, o presidente teria cancelado a visita por considerá-los “perdedores” (losers, em inglês) e “otários” (suckers). Na época, o presidente alegou mau tempo.

Segundo a revista, Trump ofendeu o senador republicano John McCain quando que ele morreu, em agosto de 2018. Na época, ele teria ficado contrariado ao ver bandeiras americanas na Casa Branca baixadas a meio mastro e teria dito que não honraria McCain porque “o cara era um maldito perdedor”. Candidato derrotado a presidente em 2008, McCain foi um piloto da Marinha capturado na Guerra do Vietnã.

No meio da atual campanha da eleitoral, a reportagem teve péssima repercussão num país em que os militares são idolatrados por seus sacrifícios em guerras. O artigo obrigou Trump a dar entrevistas na quinta e na sexta para negar que tivesse se referido aos militares mortos de forma depreciativa. “São heróis”, disse o presidente.

Lembrado de que já chamara McCain de “perdedor”, a primeira reação de Trump foi negar no Twitter. Mas ele o fizera numa entrevista em 2015, quando estava em campanha para ser eleito no ano seguinte.

Indagado se era adequado chamar de “fantoche” um ex-candidato a presidente que havia sido “herói de guerra” que ficou cinco anos e meio no cativeiro, Trump disse: “Ele perdeu [as eleições de 2008 para Barack Obama]. Então, nunca gostei muito dele porque não gosto de perdedores. (…) Ele não é um herói de guerra. Ele é um herói de guerra porque foi capturado. Gosto de gente que não é capturada”.

Joe Biden durante Convenção Nacional do Partido Democrata dos Estados Unidos - Reprodução - Reprodução

Joe Biden durante Convenção Nacional do Partido Democrata dos EUA

Imagem: Reprodução

É farto o histórico de agressões verbais de Trump nas redes sociais. O principal alvo tem sido o candidato democrata a presidente, Joe Biden. “Joe Dorminhoco” (Sleepy Joe, em inglês) é o apelido mais usado pelo republicano, mas o presidente também se refere ao oponente como “Joe Devagar” (Slow Joe) ou “Joe Hidden” (Joe Escondido).

O senador Bernie Sanders, da esquerda do Partido Democrata, é chamado de “Bernie Louco” (Crazy Bernie). A presidente da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, é a “Nancy Louca” (Crazy Nancy).

Trump age de forma mais agressiva com mulheres. Hillary Clinton, derrotada por Trump em 2016, mereceu, pelo menos, cinco xingamentos diferentes nas redes sociais: “desonesta” (crooked), “mentirosa (lyin’), “sem coração” (heartless), “vadia” (skank) e “louca” (crazy).

A senadora Elizabeth Warren, que disputou as primárias democratas, é a “Pocahontas”, porque ela já disse ter sangue indígena. Pocahontas é uma índia americana que se casou com um colonizador britânico no século 17. Seu nome verdadeiro era Matoaka. Pocahontas, um apelido, significa “criança mimada”. Pocahontas virou um mito americano e deu origem a um filme da Disney. Trump também associa Elizabeth Warren a outro personagem da Disney, o “Pateta” (Goofy).

Líder democrata Nancy Pelosi aparece rasgando o que seria discurso de Trump no Congresso - Reuters/Joshua Roberts - Reuters/Joshua Roberts

Líder democrata Nancy Pelosi aparece rasgando o que seria discurso de Trump no Congresso

Imagem: Reuters/Joshua Roberts

O ex-presidente Bill Clinton, é chamado de “Bill Selvagem” (Wild Bill). O ex-presidente Barack Obama virou “Obama Trapaceiro” (Cheating, em inglês).

A imprensa não passa batido. A rede de TV CNN é classificada de “Fake News” ou “Baixa Audiência CNN” (Low Ratings CNN). O presidente também costuma se referir à imprensa em geral como “Fake News Mídia” (Media).

O jornalista Chris Cuomo, irmão do governador de Nova York, Andrew Cuomo, é um dos alvos prediletos de Trump. O presidente o trata como “Fredo”, um personagem do mais famoso livro de Mario Puzo, que inspirou uma das melhores trilogias da história do cinema, “O Poderoso Chefão”.

Fredo é o irmão que trai Michael Corleone, que manda matá-lo após fingir perdoá-lo. Trump faz insinuação preconceituosa ao associar italianos a mafiosos, tachando Chris Cuomo, que o critica duramente na CNN, como um irmão fraco do governador de Nova York.

A presidenciável americana Elizabeth Warren - Mike Blake/Reuters - Mike Blake/Reuters

A senadora democrata Elizabeth Warren

Imagem: Mike Blake/Reuters

O jornal “The New York Times” foi batizado por Trump como “Corrupto NYTimes”. Trump fez um trocadilho em inglês com o tradicional programa de TV “Encontre a Imprensa” (Meet the Press), chamando-o de “Encontre os Deprimidos” (Meet the Depressed).

Na pandemia, o coronavírus e a covid-19 aparecem nos discursos presidenciais como “Vírus Chinês” ou “Kung Flu”, expressões que estimulam preconceito contra os americanos de origem asiática. Ao terceirizar responsabilidades para a China, Trump busca um bode expiatório para sua resposta inepta à pandemia.

Opositores também inventaram um personagem para satirizar o presidente. Nos protestos contra o presidente, há a presença assídua do “Baby Trump”, um boneco em forma de balão que usa fralda e tem cara de criança mimada.

Mas quem deu o troco mais elegante e preciso a Trump em termos de apelido foi a ex-primeira Michelle Obama. Em seu discurso na Convenção Nacional Democrata no mês passado, ela chamou o republicano de “O Presidente Errado” (the wrong president, em inglês). Trump ficou chateado, mas não encontrou até hoje um apelido para fazer bullying com Michelle.


Com Agências