Temi nunca mais voltar a ser quem eu era

Presidente da Unimed Piracicaba, o médico ginecologista Carlos Alberto Joussef, 62, se considerava saudável e “elétrico”, o tipo de pessoa que nunca para e faz mil atividades ao mesmo tempo.

A Covid-19 o fez parar. Foram 67 dias de uma internação que teve início xx dias após os primeiros sintomas, primeiro em seu próprio hospital e depois, com a piora progressiva do quadro, na unidade de terapia intensiva do Albert Einstein, em São Paulo.

Em 17 de julho teve alta e retornou para casa, em Piracicaba, já sem oxigênio, mas ainda sem conseguir andar. Ofegava ao falar com a reportagem da Folha na última sexta-feira (14).

A cidade do interior paulista, com 404 mil habitantes, tem hoje 10.258 casos confirmados e 254 mortes provocadas pela Covid-19.

Deus me deu a oportunidade de poder voltar à ativa e estar vivo. O vírus é o seguinte: acaba o ciclo dele, ele sai de você. Mas as sequelas que ele deixa nos órgãos acarretam várias complicações.

Eu tive muitas complicações durante a minha internação, que durou 67 dias. Além da Sars, que é a síndrome respiratória aguda que 99% dos pacientes têm, cinco dias depois que eu fui desintubado no [Hospital Albert] Einstein [por 16 dias], tive que ser reintubado porque tive uma doença inflamatória pulmonar chamada Boop [Bronquiolite Obliterante com Pneumonia em Organização]. Ela fibrosa o pulmão, que fica rígido e não expande. Aí passei mais 10 dias intubado para poder voltar a ter expansão pulmonar, tomando corticoide para diminuir o processo inflamatório.

Essa é a principal sequela que eu tenho que observar, fazer exercícios respiratórios diariamente para ver se meu pulmão vai voltar ao normal ou não. Existe a possibilidade de 10% a 15% de diminuir a capacidade respiratória para exercícios físicos de maior intensidade.

No dia 4 de maio, uma segunda-feira, comecei a ter uma tosse seca, leve. Achei que era alergia da máscara, porque nunca tenho tosse, nem gripe. Tenho sinusite às vezes. Na terça, a tosse persistiu um pouco. Na quarta, fiz o exame, tive o resultado, e nessa noite tive calafrio. No nono dia, eu estava meio esquisito e resolvi me internar [no Hospital Unimed Piracicaba]. E aí começou o quadro de piora. No 16o dia eu já estava com 100% dos pulmões tomados, intubado com pressão máxima no oxigênio para conseguir sobreviver.

Veio me ver um médico intensivista [Murillo Santucci Assunção] , especialista nessa área, e ele disse que poderia cuidar de mim em São Paulo. Lá ele já fez manobras de risco para eu poder sair do quadro. Fiz um pneumotórax, fiquei 41 dias com dreno, tive fibrilação arterial e precisei cardioverter, tive prostatite, tive choque séptico, tive pneumonia bacteriana. Fiquei 45 dias na unidade intensiva, depois fui para a semi-intensiva, daí para um quarto Covid e depois para um quarto não Covid. O rim funcionou muito bem e não precisei de hemodiálise, o que foi fundamental.

Não sou obeso, não tenho diabetes, não tenho hipertensão. Tenho uma extrasístole cardíaca, que é uma arritmia simples; meus exames coronários e de sangue são normais. Não tive miocardite, foi uma das grandes vantagens. Miocardite é uma das grandes complicações da Covid. Outra complicação maior são as tromboses, dá muita embolia. Tomei 120 ampolas de Clexane [anticoagulante] de 80 mg cada uma lá no Einstein, uma dose altíssima.

Até hoje tomo anticoagulante para evitar trombose. Porque você nunca sabe a evolução da doença, ninguém sabe direito o que acontece nos próximos seis meses. Então tenho que tomar alguns medicamentos preventivos.

É uma doença perigosíssima, porque ela não avisa o que ela vai fazer com você. Ela não avisa.

As pessoas não acreditaram aqui, mas tive muita alucinação. A Covid dá uma confusão mental muito grande, você alucina muito, sonha muito e vive aquela coisa como se fosse realidade. Eu me lembro de coisas de quando estava intubado, mesmo tomando Precedex, Propofol [sedativos].

A morte é uma sensação que a gente que é médico não pensa, mas nessa hora eu pensei. Tenho uma filha única, que faz medicina também, está no sexto ano. E eu tinha a sensação de que nunca mais iria ver minha filha. Uma das coisas que mais me afligiu foi pensar que eu nunca mais ia acompanhar, vivenciar as coisas felizes dela, as realizações dela.

Eu tenho três lemas na minha vida: meta, foco e determinação. Eu sou assim. Eu falei que viria para Piracicaba em 17 de julho sem oxigênio e sem andador e eu consegui. E até o dia anterior eu estava com oxigênio e mal conseguia andar.

Eu sou muito determinado. Os médicos e as fisioterapeutas no Einstein disseram que talvez o grande mérito meu tenha sido essa determinação. Eu queria viver de qualquer forma. Eu sou uma pessoa ligada, muito ativa, faço quantas coisas quiser ao mesmo tempo, penso em várias coisas ao mesmo tempo, sou muito elétrico. E me chocava, eu não voltar a ser eu mesmo. Isso me afligia muito, me deixava até deprimido até.

Num sábado, estava com a minha filha [Maria Luísa, 23], os dois chorando, preocupados porque eu não conseguia sair do oxigênio, eu disse para ela: eu vou sair. Vou me matar de fazer exercício, mas vou sair. A coisa que mais me deu força foi minha filha, e essa conversa que nós tivemos. Ela estava muito abalada com a sensação de me perder. Minha mulher também, a Adriana sofreu muito. São as pessoas com quem você convive e que gostam de você que te impulsionam.

Meu quadro estava muito irreversível, muito difícil de resolver. Esse médico, que era conhecido da Adriana, disse: “Ele tem uma chance. Não é muito grande, mas tem, e eu preciso ficar em cima dele”. Foi um médico marcante na minha vida, tem um conhecimento muito grande. Me mandou uma mensagem bonita, falando que nós somos muito parecidos, que eu respondia a tudo que ele fazia. Foi uma coisa inesquecível para ele e para mim. Ele trabalha em casos de alta complexidade em UTI, então acabou ficando um maestro de Covid, especialista em pulmão de Covid.

E volto a insistir, é uma doença perigosíssima. Doença viral mata, gripe mata, e muito. Infelizmente, temos que aprender a conviver com essa realidade. Quantos filmes você já assitiu de pandemia? O filme virou realidade.

Voltei a trabalhar na diretoria [do hospital] vai fazer três semanas. Tinha muita coisa para resolver, então tomei a decisão de voltar. Minha saturação melhorou, só com esforço que não ainda, porque tenho muita fraqueza muscular, atrofia, perdi peso. Recuperei uns 50% do peso que eu perdi. Desde a semana passada estou atendendo algumas grávidas no consultório, não estou fazendo consulta ginecológica ainda.

Quando eu voltei para cá, vivo, fiquei muito feliz de ver o quanto a população se uniu em torno da minha volta, todas as classes, todas as correntes religiosas, em Piracicaba, Rio das Pedras, que foi a cidade onde nasci, São Pedro, Tietê, a região toda. Deus me trouxe de volta, sou eternamente agradecido de ter a vida novamente. Minha gratidão é eterna. Poder conviver com as pessoas que você ama não tem preço. Estou muito feliz.​

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