O funcionário que virou as costas para Lukashenko em Belarus

“A geração atual é a primeira geração realmente livre da história do nosso país. Esses bielorrussos nasceram depois da queda da União Soviética e não aceitam mais as receitas soviéticas”, disse o membro do conselho de oposição de Belarus em entrevista à agência EFE.

Na opinião dele, Lukashenko, o diretor de uma cooperativa agrícola que se tornou o eterno presidente de Belarus, acreditou que poderia seguir mantento o ‘status quo’ repressor que criou com a ajuda da KGB há mais de um quarto de século e, quando quis reagir, “já era tarde”.

“Os bielorrussos vivem no século 21, mas o sistema está preso ao século 20. Já não atende às ambições e aspirações da maioria dos bielorrussos”, afirmou.

Latushko, de 47, percebeu que o país se encontrava afundado em uma “depressão” quando voltou a Minsk em 2019, depois de passar 7 anos trabalhando como embaixador na França, na Espanha e em Portugal.

“Foi nessa época que eu entendi que não havia nenhuma fé em uma possível reforma do sistema. O país havia sofrido uma fratura psicológica e já não havia mais como voltar atrás”, comentou ele.

Para o ex-embaixador, o sistema se tornou obsoleto, de uma maneira que lembra a estagnação que a URSS viveu com Leonid Brezhnev entre as décadas de 1960 e 1980. Isso teria começado há 5 anos, quando Lukashenko foi, mais uma vez, reeleito presidente.

“Os sintomas de deterioração são generalizados. O governo não tem motivação para introduzir mudanças. Não se apóia em nenhuma iniciativa e os principais funcionários não se atrevem a fazer novas propostas”, destacou.

Quando voltou ao país, Latushko foi nomeado diretor do Teatro Acadêmico Nacional, de onde teve uma visão privilegiada dos excessos do regime dentro do qual ele havia construído uma longa e bem-sucedida carreira pública.

“Há situações que te comem por dentro. Há limites que você não consegue ultrapassar. Sou um funcionário do governo, mas também sou um homem de princípios. E chega o momento em que você precisa fazer uma escolha”, explicou.

Ele não foi o único que se rebelou. Seu sucessor na embaixada de Madri, Pavel Pustovoi, foi exonerado do cargo na última segunda-feira (31), entre outros motivos, por pedir no Facebook uma nova recontagem dos votos emitidos nas eleições presidenciais do último dia 9 de agosto.

Mas foi o caso mais notório, já que Latushko, que foi Ministro da Cultura (2009-12), foi demitido logo após denunciar a violência policial..

“Não foi fácil, já que dediquei muito esforço para construir minha carreira, mas fomos testemunhas de tantas violações e excessos que chegamos a um ponto sem volta. Percebi que não podia continuar naquelas condições. Do contrário, estaria me enganando e a todos que confiam em mim”, destacou.

Latushko escolheu se manifestar como diplomata e funcionário da cultura de Belarus. Foi despedido, mas recebeu o apoio da maioria dos atores e diretores de uma das principais instituições culturais do país. “Foi quando me dei conta de que não estava sozinho”, disse ele.

Enquanto Lukashenko segue obcecado com conspirações que parecem saídas da Guerra Fria e usa o mesmo vocabulário ultrapassado que os burocratas soviéticos, os bielorrussos que manifestam nas ruas se sentem europeus.

“É preciso entender que os bielorrussos estão em primeiro lugar entre os antigos países soviéticos em vistos europeus. Eles viram o mundo, viajaram por toda a Europa e sabem como é a vida no resto do continente”, explica.

O próprio presidente de Belarus já reconheceu que centenas de milhares de cidadãos do país emigraram nos últimos anos.

“Eles foram para a Rússia e para a Ucrânia, mas também para muitos países que fazem parte da União Europeia. Viram outros modos de vida e querem que Belarus permaneça no caminho da mudança. Querem viver de outra forma e não querem olhar para trás”, afirma Latushko.

Esses bielorrussos, insiste ele, não querem trabalhar em fábricas estatais, mas “em multinacionais estrangeiras onde podem ter contato com novas tecnologias”.

“Em Belarus não há trabalhos interessantes para as pessoas que têm iniciativa. Ninguém quer investir no nosso país”, alerta.

Fiel à sua formação diplomática, Latushko aposta no diálogo e no senso comum, e não quer nem ouvir falar a palavra “revolução” que, para ele, “normalmente implica em violência”.

Para ele, é preferível que seja estabelecido o diálogo entre o conselho de coordenação da oposição, que a justiça declarou “inconsitucional”, e o regime de Lukashenko, que até agora se recusou a se sentar na mesma mesa que os opositores.

O ex-ministro admite, no entanto, que é possível que as tímidas concessões feitas por Lukashenko, na forma de uma proposta de reforma constitucional e investigação da violência na repressão policial sejam uma maneira de “ganhar tempo”, “diminuir o ímpeto dos protestos” e “livrar sua cara”.

“Seja como for, a sociedade não vai aceitar um retorno ao passad. A violência não pode ter futuro. Devem haver mudanças e elas devem acontecer amanhã e não no dia seguinte”, insistiu.

Tudo começou com a pandemia do novo coronavírus. O poder aquisitivo dos bielorrussos não para de cair há algum tempo, mas o que esgotou a paciência dos cidadãos foi a gestão do governo. Lukashenko, desde o início, fez questão de negar que a covid-19 seria um problema para o país.

“As autoridades e a imprensa oficial tentaram ocultar e minimizar os riscos para a saúde pública. O governo nunca reconheceu que a covid-19 fosse uma ameaça até que fosse tarde demais”, declarou o opositor.

A decisão de não impor nenhum tipo de restrição nem adotar medidas efetivas para prevenir a pandemia, sem nem ao menor proibir os atos públicos, acabou criando uma “massa crítica” disposta a protestar a qualquer momento.

Latushko acredita que a desconfiança acumulada vai fatalmente desembocar em protestos por motivos econômicos, um problema muito mais perigoso para Lukashenko que as manifestações que reuniram multidões após a eleição no início de agosto.

“Se a crise econômica se agravar porque as exportações e a renda das pessoas despencar de vez, os protestos serão muito mais fortes do que foram até agora. Não é o que eu desejo, mas vai acontecer”, prevê.

RSS
Follow by Email
Twitter
Visit Us
Follow Me
YOUTUBE
Leitores On Line