Fundo do poço no setor de aço ficou para trás, mas IABr ainda prevê queda nas vendas em 2020

 O pior momento da crise desencadeada pela pandemia de Covid-19 para a indústria siderúrgica brasileira ficou para trás e o setor espera retomada gradual de uso da capacidade instalada nos próximos trimestres, se os Estados Unidos não atrapalharem, afirmou o presidente-executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), nesta segunda-feira.

A entidade, que representa siderúrgicas como Gerdau, Usiminas e ArcelorMittal, estimou que o consumo de aço do Brasil em 2020 deve cair 14,4%, para cerca de 18 milhões de toneladas. A perspectiva, porém, mostra uma sensível melhora sobre a previsão mais sombria divulgada no final de março, que apontava queda de 20% no ano.

“Temos convicção de que o fundo do poço ficou para trás…O fundo do poço foi abril”, disse o presidente-executivo do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, em apresentação online a jornalistas. Ele citou que as vendas de aço no Brasil em maio foram melhores que em abril, o mesmo ocorrendo em junho ante maio, quando as vendas subiram 29,6%, para 1,55 milhão de toneladas, praticamente o mesmo nível registrado em junho do ano passado.

Mas o executivo afirmou que a representação comercial dos Estados Unidos nos últimos dias tem pressionado o Brasil para uma mudança no regime de cotas de exportações de material semiacabado, destinado às usinas siderúrgicas norte-americanas.

Segundo Lopes, os EUA querem que o Brasil aceite uma mudança no regime de cotas, envolvendo uma redução no volume do quarto trimestre, previsto em 350 mil toneladas. “Eles nos ameaçaram, se não concordássemos, de imposição de imposto de importação ou fariam uma redução nas cotas. Quem inventou esse regime foram os próprios americanos”, disse Lopes.

Ele classificou a estratégia do governo de Donald Trump como “manobra política com fins eleitoreiros para atender demanda de empresas siderúrgicas norte-americanas” e avalia que se os EUA impuserem taxação, ela será de 25%.

O executivo afirmou que o volume de exportações de aços semiacabados do Brasil para os EUA no terceiro trimestre, de 1,05 milhão de toneladas, já foi todo ocupado, por demanda dos próprios clientes de dlá, que precisam do produto para produzirem aços acabados para setores como máquinas e veículos.

No total, a cota brasileira anual de aço semiacabado para os EUA é de 3,5 milhões de toneladas por ano.

“Como não foram atendidos no terceiro trimestre, o (representante comercial dos EUA, Robert) Lighthizer, pede para cancelar os embarques do último trimestre”, disse Lopes, que afirmou que o governo brasileiro está tratando do assunto.

A exigência dos EUA ocorre no momento em que a disputa de mercados internacionais é uma das poucas formas de ocupar a capacidade ociosa da siderurgia brasileira, que chegou a cair para apenas 42%, de 51,5 milhões de toneladas em abril.

Atualmente, o indicador avançou para 48,5%, mas ainda segue abaixo do nível considerado ideal pelo setor, de acima de 80%. O setor tem 10 alto fornos parados, disse Lopes, após religamentos de três equipamentos, de Sinobras, Gerdau e ArcelorMittal, no final do segundo trimestre e início de julho.

O IABr também fez outras projeções para o ano, incluindo produção de aço bruto, em queda de 13,4%; e vendas internas, baixa de cerca de 12%. A projeção para as exportações é de recuo de 14,4%, sem considerar a exigência norte-americana de corte no último trimestre.