Forquilhinha: famílias vivem entre a pirita e o rio na Cidade Alta

O automóvel da reportagem avança por uma estrada de terra batida, em paralelo a ferrovia, pouco além do limite de Criciúma. A ponte que passa sobre o rio Sangão é o início da Cidade Alta, região de Forquilhinha delimitada pela pirita do carvão que era extraído ali e pelo próprio rio. É neste bairro que vive cerca de 300 famílias em moradias de ocupação, convivendo com os resíduos deixados pela mineração, em uma área de 22 hectares, alvo de imbróglio judicial entre duas companhias energéticas.

Cerca de 50% dessas famílias moram em casas sem ligação regular com energia elétrica ou água. Outras já foram deslocadas para as mais de 112 habitações populares ofertadas pelo poder público. Entre catadores e trabalhadores autônomos paira a insegurança de um imóvel irregular e as dificuldades econômicas acentuadas pelo coronavírus.

Em uma casa na área de ocupação da Cidade Alta vive o ex “boia-fria” Antônio da Silva, 57 anos. A reportagem o encontrou após cruzar o emaranhado de ruas de terra da localidade. Estavam ele e a mulher, Terezinha, no pátio frontal da residência, enquanto mais um dia de ócio passava.

Analfabeto, Antônio nasceu no interior paranaense. Ele conta que trabalhava derrubando árvores em fazendas com seu pai, também um “boia-fria”. “Eu fui algumas vezes para a escola, mas não conseguia frequentar porque a gente viajava muito”, lembra. Uma das imagens que guarda da infância era dos caminhões dos proprietários de terra chegando com o material para a derrubada das árvores e do posterior plantio nas terras.
“A gente ganhava só o que comer, um pouco de arroz, feijão e as batatinhas que eles plantavam”, diz. Foi em meio às dificuldades da vida no interior do Paraná que Antônio viajou, com o pai e os 12 irmãos, para o Sul catarinense. Primeiro em Criciúma, depois em Jaguaruna, para por fim fixar-se em Forquilhinha, onde conheceu Terezinha, também paranaense e então mãe de cinco filhos.

Em quase 11 anos morando juntos em Forquilhinha, tiveram uma filha juntos, hoje com dez anos. Além dos três, vive na mesma casa uma filha de Terezinha, com 30 anos, portadora de deficiência mental. Em uma casa de três cômodos ao lado mora Alessandra Veiga, 21 anos, também filha de Terezinha. O casebre que divide com o filho de cinco anos e o marido foi um presente do padrasto e é um dos muitos na região que não tem regularizada a energia elétrica.

A situação das duas famílias é difícil. Antônio da Silva é vendedor de algodão doce, mas conta que desde o início da pandemia está sem trabalhar. Terezinha não tem emprego, porque passa o dia cuidando das filhas. Alessandra trabalha durante a manhã e a tarde em um ponto de reciclagem, fazendo a separação entre os tipos de materiais: plásticos, papeis e vidros, em meio ao lixo orgânico “que as pessoas não sabem separar”, diz a recicladora.

Nas duas casas predomina a ausência de superfluidades. Inclusive a alimentação é com o básico. “Carne hoje em dia é ouro”, diz Antônio. “Às vezes a gente compra aquelas coxinhas de frango, mas geralmente é arroz, feijão e farinha”, completa Terezinha. O pouco dinheiro que recebem do auxílio emergencial é usado para pagar as contas de luz e água, regularizadas no imóvel do casal, e gás.

Antônio conta que trabalha desde novo de forma itinerante. Deixou a zona rural aos 12 anos e iniciou uma série de viagens pelo interior paranaense. Aprendeu música com o irmão e aventurou-se em rádios para divulgar o trabalho de Jean Vitor, irmão mais novo, um compositor de músicas românticas. Orgulhoso, Antônio mostra o cd lançado pelo irmão há alguns anos um vídeo dos dois tocando juntos. “Se ligar para as rádios do Rincão, periga ainda ter músicas dele”, avisa.

Um dos sonhos de Antônio é que o irmão faça sucesso na música. “Eu pensava que ele ia lançar muitas coisas e eu ia montar uma banda para ele”, recorda. No entanto, ele lamenta que hoje em dia a música tornou-se hobby para Jean, que trabalha há poucos meses em Itajaí.

“A gente veio para o Sul de Santa Catarina porque tem mais emprego, é mais fácil ganhar dinheiro”, recorda. “Mesmo que seja pouquinho, dá até para comprar um carrinho velho”, completa, lembrando das vendas de algodão doce, que foram interrompidas na pandemia.
Quando tinha o emprego, Antônio passava o dia inteiro caminhando; recentemente a família investiu em uma máquina para fazer algodões doce. Outro negócio que o ex-vendedor projeta é uma troca do seu carro, um Del Rey, por uma gaita. “São muito caras, não tenho como comprar”, lamenta.

“Minha vida desde pequeno foi trabalhar como boia-fria, depois saía por tudo o que é lugar, sem dinheiro nem nada, para divulgar o trabalho do meu irmão. Nunca pensei em roubar nada, sempre fui na composição certa Agora eu quero cuidar melhor da saúde”, projeta Antônio, mostrando o calo nos ombros de tanto carregar os “postes” com algodão doce pelas ruas.

Ao neto Miquéias, de cinco anos, e à enteada Alessandra, Antônio construiu uma casa há cerca de sete anos, quando ela se casou. “Fui juntando madeira por aí e fiz a casa. A coisa mais triste para alguém é não ter um teto e ser humilhado pelos outros por isso”. Ele olha com orgulho para o neto, que sonha em ser jogador de futebol. “Ele chuta com as duas pernas”, gaba-se o avô.

As crianças – Miquéias, neto, e a filha de 10 anos, Jaqueline – passam os dias em casa brincando com os vizinhos. Sem escola, recebem a cesta básica do governo, mas entristecem-se com o tédio. “Na escola tem lanche bom e lá eu gosto de brincar com meus amigos”, afirma Jaqueline.

Chegando cansada do trabalho, por volta das seis horas da tarde, Alessandra recebe a reportagem no casebre ao lado da casa da mãe. O salário na reciclagem mal chega a R$ 1 mil, dependendo das metas cumpridas. “O caminhão despeja o lixo e a gente separa o material”, detalha a recicladora.

Casou-se com 14 anos – o marido tinha 19 na época. Ele sai de casa às 5h para trabalhar em uma obra em Braço do Norte e volta para casa só depois das 19h. “Agora que a gente está se arrumando, no começo da pandemia foi uma luta”, diz Alessandra. Ela trabalha com carteira assinada em uma empresa de reciclagem, mas no começo da pandemia perdeu o emprego e foi para essa nova, onde trabalha informalmente – a exemplo do marido.

Entre as esperanças de futuro para Alessandra estão a regularização do imóvel e do abastecimento de energia elétrica. Ela também projeta, algum dia, sem precisar, voltar a estudar. Largou a escola aos 16, quando estava no primeiro ano do ensino médio, enquanto o marido parou na 5ª série.

O principal problema enfrentado pelas famílias na Cidade Alta é a insegurança em relação às próprias casas. A Associação de Moradores do Bairro participou de várias audiências públicas, desde 2013, para tratar do tema às 300 famílias que ainda não foram realocadas para as moradias populares.

Grande parte dos moradores da região trabalha na reciclagem ou como vendedores autônomos nas ruas, como o caso de Antônio e Alessandra. A área de ocupação é alvo de solidariedade do restante do bairro que vive em área regular. O bairro existe há aproximadamente 70 anos, enquanto os 22 hectares de ocupação começaram a abrigar famílias há 20 anos – entre as piritas e o rio Sangão.

De acordo com a coordenação de Assistência Social de Forquilhinha, a Cidade Alta é a área mais vulnerável do município. O CRAS informa que um dos problemas, além das moradias consideradas irregulares, é a falta de qualificação profissional da população. “Existem muitas vagas de emprego no município”, informou à reportagem.

O CRAS considera como desafios na região aumentar a qualificação profissional e atividades nesse sentido vêm sendo desenvolvidas nos últimos anos. Em uma cidade com pouco mais de 27 mil habitantes e IDH de 0.753, de acordo com estimativas do IBGE, são 389 famílias beneficiárias do Bolsa Família.

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Com Agências