Desinformação sobre H1N1 é usada para minimizar impacto da Covid-19

Embora a H1N1, também conhecida popularmente como gripe suína, tenha sido considerada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o efeito dos dois vírus no mundo foi bastante diferente. A H1N1 foi muito menos letal do que inicialmente imaginado. Pesquisadores estimam que a taxa de mortalidade foi de apenas 0,026%. Já para a Covid-19, essa taxa ainda não é certa, mas estudos convergem para algo entre 0,5% e 1% – na melhor das hipóteses, portanto, o novo coronavírus é 20 vezes mais letal que a gripe suína.

Já no final de março, uma falsa comparação entre a H1N1 e a Covid-19 circulava no Brasil – e foi verificada pela Lupa. Uma imagem comparava os números de casos e mortes das duas doenças e insinuava que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi poupado de críticas. Embora citasse números corretos, o conteúdo comparava casos e mortes ocorridos em mais de um ano de epidemia de gripe suína contra apenas os 24 primeiros dias da nova doença. 

O primeiro caso de H1N1 no Brasil foi registrado em 7 de maio de 2009. Quase dois meses depois, em 28 de junho, aconteceu a primeira morte. Em julho de 2010, no final da pandemia, o Brasil tinha registrado 2.146 mortes. Segundo o Ministério da Saúde, até o dia 26 de julho, a Covid-19 já tinha matado 87 mil pessoas no país.

Padrões semelhantes de desinformação também foram vistos nos Estados Unidos. Ao menos três publicações circularam nas redes sociais americanas (aqui, aqui e aqui) comparando de forma inadequada o número total de mortes por H1N1 com o estrago feito pela Covid-19. Assim como no Brasil, os conteúdos falsos associavam o presidente americano na época, o democrata Barack Obama, à pandemia. De 15 afirmações falsas sobre H1N1 verificadas por checadores americanos, sete citavam diretamente o ex-presidente. Uma das publicações dizia, por exemplo, que o democrata demorou seis meses para tomar ações no país após a descoberta da gripe suína, o que não é verdadeiro. Obama declarou estado de Emergência em Saúde Pública em 26 de abril de 2009, seis semanas antes de o surto ser definido como uma pandemia pela OMS.

Além das falsas comparações entre as duas pandemias, conteúdos também viralizaram atribuindo a culpa da H1N1 à China. Em junho, uma peça de desinformação verificada pela Lupa dizia que a gripe suína também teria sido disseminada pelos chineses. Informação semelhante também circulou na Austrália. Mas a H1N1 veio da América do Norte. O primeiro registro do vírus aconteceu em março de 2009, em um vilarejo no estado de Veracruz, no México. Um mês depois, casos foram identificados no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Uma pesquisa da Faculdade de Medicina Mount Sinai investigou os traços de DNA do patógeno e confirmou sua origem.

Outras doenças 

Teorias da conspiração envolvendo outras doenças também circulam pelo mundo durante a pandemia do novo coronavírus. Várias publicações criaram falsos padrões temporais para relacionar o surgimento de doenças, fatos políticos e desenvolvimentos tecnológicos.

Nos Estados Unidos e na Austrália, por exemplo, um conteúdo que circulou alegava que “pandemias acontecem em todos os anos eleitorais”. O texto listava surtos anteriores, como a H1N1, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), o Ebola, a Zika e outros, e relacionava com eleições nos países citados. As datas, porém, eram quase todas falsas. 

Já em Portugal e na Nigéria, conteúdos ligavam epidemias ao surgimento de tecnologias de comunicação. Covid-19, MERS e H1N1 estariam ligadas respectivamente ao surgimento das antenas de 5G, 4G e 3G. Além de não existir relação entre tais tecnologias e a disseminação dos vírus, as peças de desinformação também erram as datas de cada situação.