Coronavírus: A cada 66 moradores de BH, um já teve Covid-19

Em 180 dias vimos hospitais cheios, cemitérios congestionados, famílias chorando a perda de parentes. Sentimos na pele a tristeza do luto coletivo, nos trancamos em casa por precaução, ficamos atônitos. A cidade se fechou, as ruas pareciam de uma vila fantasma. A reabertura veio com bares e shoppings.

Ao longo dos seis meses de pandemia em Belo Horizonte completados hoje, perdemos 1.136 pessoas para o coronavírus. Mais pessoas morrerão, mais sepulturas serão cavadas e um receio dos infectologistas se apresenta: há risco de a cidade ter que ser fechada novamente em dezembro.

Aquela segunda-feira de 16 de março de 2020 entrou para a história da capital com o registro do primeiro caso de Covid-19 no município. A prefeitura confirma apenas que o paciente morava no bairro Belvedere, na região Centro-Sul. A primeira morte aconteceu 13 dias depois – um paciente do bairro Floresta.

Em julho e agosto, o número de mortes aumentou, culminando na mais trágica quarta-feira do ano – naquele 12 de agosto a cidade teve a média diária de mortes em 24,3 |– a pior até o momento. Hoje, a cada 66 moradores, um testou positivo para Covid-19.

Um comitê de enfrentamento à Covid-19 foi montado pela prefeitura, com a atuação de infectologistas que analisavam números de ocupação de leitos e taxas de transmissão do vírus. “Aprendemos muito nesses seis meses”, resume Unaí Tupinambás, um dos especialistas. Para ele, a cidade tomou medidas de prevenção no tempo correto. “Tanto que nossa curva aconteceu no final de junho e início de julho, atrasada em comparação a outras capitais, além de ter sido mais baixa”, compara. Conforme os dados da prefeitura, a curva de casos sobe tardiamente e cai na segunda metade de agosto.

 

Bloqueio

Se recomendar o fechamento da cidade foi um dos momentos mais difíceis, uma nova ordem para trancar tudo novamente seria ainda mais impactante. E o infectologista não descarta a hipótese. “O que nos preocupa é o comportamento um pouco desleixado das pessoas, de banalizar a pandemia”, avalia. Qualquer vacilo no cumprimento de regras sanitárias e de distanciamento agora pode resultar em um aumento de casos que só vai aparecer nas pranchetas dos especialistas no fim de novembro. “Isso pode se refletir no aumento da ocupação de leitos de CTI, e tenho receio de termos que fechar a cidade em dezembro”, diz. “Seria algo complexo e traumático. Caso as pessoas continuem relaxando, tenho medo de pormos tudo a perder”, completa.

Segunda onda

Mesmo com os números de Covid-19 em desaceleração,Belo Horizonte ainda apresenta uma média diária de mortes em setembro na casa de 9,9. O índice era de 2,9 em junho. Com a reabertura de bares, restaurantes e academias, cautela é mais do que recomendada pelos especialistas.

“Nossa taxa de transmissão demonstra que nós temos muitas pessoas suscetíveis ainda. O mundo todo teve uma segunda onda”, alerta Unaí Tupinambás. 

“As pessoas usam a máscara errado, não têm consciência. Isso vai render muito mais”, desabafa um chef de cozinha de 42 anos, um dos primeiros a testar positivo para Covid-19 na capital. A mistura de tosse, dor no corpo e 42 graus de febre fez o chef pensar que estivesse com dengue.

“Estamos isolados desde então”, diz sua companheira, uma consultora em gestão de risco também de 42 anos. Curiosamente, o exame dela deu negativo.