Celso Amorim: Com Bolsonaro, credibilidade do Brasil está no lixo

“É o pior momento que o País já viveu”

“Hoje, o País está tomando posições lamentáveis, de evidente submissão aos Estados Unidos”, completa

Não surpreenda a repentina pergunta dirigida ao grande amigo Celso Amorim: entre os três grandes mestres da Renascença, Leonardo, Michelangelo e Raffaello, quem fala mais ao seu gosto apurado? Escolhe Raffaello e eu me lembro de Deoclécio Redig de Campos, outro brasileiro de elevada cultura, curador por mais de três décadas dos museus vaticanos. Tratava-se de um paraense absolutamente romano, filho de um diplomata que aportara à capital italiana quando menino e de lá nunca saíra como cidadão cativo para todo o sempre. Entrevistei Deoclécio em 1958 e ele me reteve por um dia inteiro em visita às Stanze de Raffaello, afrescadas pelo artista de Urbino. De certa forma, revelou-me Raffaello, que nos seus afrescos usava broxas como se fossem pincéis de cerdas finas para evocar cenas empolgantes pintadas a óleo sobre tela, com os mesmos efeitos e transparências. Vinte anos depois, visitei novamente Deoclécio, desta vez juntamente com minha mulher, e ele me recebeu com o tom de quem se despedira um dia antes. Repetimos o mesmo trajeto das Stanze que levava à Capela Sistina, sem impedir uma rápida visita a um papa de Francis Bacon, Inocêncio X, espanhol raivoso.

A lembrança me agrada muito, porque há uma clara semelhança entre Celso e Deoclécio. O ex-chanceler é uma figura de notável cultura, conhecedor profundo da arte italiana, das belezas da península, além de admirador do cinema de De Sica, Rossellini, Visconti e tantos outros do neorrealismo. O que, obviamente, não deixa de me emocionar. Na qualidade de diretor da Embrafilme, em 1980 celebrou a indicação em Cannes do filme Bye Bye Brasil, e sua paixão pelo cinema não esmorece até hoje.

Tenho por Celso uma admiração infinda, por suas intermináveis qualidades humanas e intelectuais, e porque à sombra dele desenrolou-se uma política internacional que, para mim, é o primeiro e mais autêntico trunfo do governo Lula, política independente, desvencilhada dos interesses de quem quer que seja, a começar pelos Estados Unidos, que naquele período foram forçados a admitir que o Brasil já não era uma porção do seu quintal. O que me chama a atenção especial em Celso é a leveza invejável da sua fala e da sua escrita, revelada inclusive na observação a respeito de um assunto debatido em Puebla, faz algum tempo, entre autoridades latino-americanas. Somos socialistas ou capitalistas amigáveis? Tal era a inquirição discutida e a opção do ex-chanceler está além de óbvia, com o toque de quem entendeu tudo e suavemente o exprime com a placidez da verdadeira paz de espírito e a consciência do dever cumprido.

A seguir, os tópicos principais.

Os méritos de Lula

Lula tinha uma visão muito clara, uma percepção também muito clara e um instinto muito forte pela independência, pela solidariedade com os outros países mais pobres. Tenho uma foto com Lula, nunca mais vi, acho que está em um dos meus livros, foi tirada quando de uma das primeiras grandes viagens que fizemos, acho que fomos à Índia, e estávamos voltando para Genebra, e em determinado momento cometemos até certo pecado, porque ficamos os dois ali segurando os manches do avião, claro que o avião estava em piloto automático, e na dedicatória da imagem ele escreveu “Juntos pilotando o Brasil”, uma grande generosidade, obviamente, ele estava pilotando o Brasil. Mas eu podia ser, digamos, na área específica da política externa, um modesto assistente, um copiloto que sabia reconhecer as nuvens de maneira mais nítida, porque já tinha passado por ali. (…) Era uma política externa de constantes iniciativas difíceis, muitas delas partiram de Lula mesmo, como realizar a cúpula entre Brasil e os países árabes. (…)

Outro dia, eu estava lendo um documento de uma assessoria do Congresso dos EUA, que começa dizendo “o Brasil, que teve uma grande projeção internacional”. (…) O contraste brutal com a situação atual é evidente, fui embaixador de governos anteriores que não eram propriamente progressistas, mas que não chegavam a envergonhar o Brasil, você podia divergir de algumas decisões, achar que tínhamos de ter sido mais firmes em algumas coisas.

O prestígio de Lula

Trabalhar com Lula foi muito bom, havia muita procura por ele pelo que representava, pela carreira dele, pela trajetória dele e pelo que se esperava dele, e que depois tudo se realizou. O Brasil é um grande país. (…) Se você quiser apontar os dez maiores países em termos de população, território e Produto Interno Bruto, apenas cinco se qualificam, e um deles é o Brasil. (…) Eu vejo a mídia dizendo que o Brasil tem mais embaixadas que a Alemanha, que a África conta com mais embaixadas do que a Alemanha, mas é claro que a população alemã não é 52% de origem africana. (…) Um acadêmico africano chamado Kalestos Juma, do Quênia, que também teve cargos internacionais, dizia: “Para cada problema africano existe uma solução brasileira”.

Dilma presidenta

Nossa política externa se manteve, eu fui ministro da Defesa dela, com muita honra. Dilma é uma mulher digna, correta, criou a Comissão da Verdade, algo bem complexo. (…) Ela realmente não tinha o mesmo entusiasmo de Lula pela política exterior, mas sempre teve posições muito boas, corajosas. Por exemplo, quando não concedeu o agreement para um embaixador israelense que era ligado aos movimentos mais de direita de Israel. E foi no governo dela que se concretizou o banco dos BRICS. Então foi uma continuidade, talvez não com o mesmo entusiasmo, mas foi uma continuidade.

Socialismo ou capitalismo amigável?

Outro dia, eu estava numa reunião do Grupo de Puebla, debatiam-se ideias muito boas, e eu falei: “A gente precisa resolver, estamos nos dizendo socialistas, mas tem de resolver se a gente quer o socialismo ou um capitalismo amigável, são duas coisas diferentes”. Em geral, os que se dizem socialistas modernos na verdade estão buscando um capitalismo amigável, que só o é durante algum tempo, porque, quando as coisas apertam, eles mostram a sua verdadeira face. (…) Eu acredito que muitas coisas estão mudando, a dominação cultural, intelectual, psicológica, da chamada elite está sendo quebrada e, de certa maneira, este governo absurdo que a gente tem é totalmente despido até da hipocrisia. La Rochefoucauld dizia que a hipocrisia é uma homenagem que o vício faz à virtude. Aqui não tem nenhuma homenagem à virtude, mas sim à maldade, à crueldade, de maneira direta. Isto está mexendo também com a população mais pobre e a gente vai ver o resultado no futuro. Ou talvez a gente não veja, mas o Brasil verá.

O futuro de Trump

Eu já errei muitas vezes, mas acho que ele não vai ganhar, e já está começando a sentir isso. Ele está, inclusive, começando a usar aquela tática que Bolsonaro também usou, de desconfiar das eleições. (…) Ele está criticando o voto por correspondência, que pode se prestar à manipulação, ele está criando uma vacina, digamos assim, contra a derrota.

E o candidato Biden?

Entre um poste e o Trump, é melhor o poste. (…) Os interesses estruturais dos Estados Unidos não vão mudar, é óbvio. (…) Mas acho que a nuance faz a diferença, a nuance pode ser representativa de milhares e milhares de vidas, centenas de milhares de vidas, então vamos torcer pelo Biden. (…) O ideal não é, claro que não, eu teria gostado muito de Bernie Sanders, se fosse o candidato dos Democratas, mas não pôde ser, e o que vejo hoje, diferentemente do que ocorreu com Hillary Clinton, é que há uma aproximação das equipes, inclusive eles estão até traçando um programa mínimo comum com a equipe de Bernie Sanders. Penso que, digamos assim, Joe Biden, para se eleger, tem de garantir alguma coisa, inclusive junto à classe operária, a qual também se sente ameaçada pela liberalização, coisa que Hillary não fez. Hillary tinha o apoio claro dos democratas com seus feudos óbvios e apoios evidentes, mas acredito que Biden pode dar a esperança de algo melhor internamente. No plano externo, algo pior que o Trump é muito difícil imaginar, sobretudo pensando nos reflexos imediatos no Brasil, porque o único fiapo que ainda liga o governo Bolsonaro a algo na comunidade internacional é a relação com a extrema-direita norte-americana. Mesmo assim, Trump às vezes diz que não se identifica com ele. Então acredito que a derrota de Trump terá um efeito importante aqui no Brasil.

Bolsonaro e os militares

Há quem diga que o governo Bolsonaro pode ser as Malvinas das Forças Armadas brasileiras. (…) Fui Ministro da Defesa por três anos e meio e sei que existem fardados conservadores e reacionários, que foram longe demais no governo Bolsonaro, porque aqui, diferentemente de 1964, foram atraídos pelo bolsonarismo como se fosse um boneco de piche. Eles foram entrando e colando no bolsonarismo, ficando grudados em algo que não é propriamente a ideologia original deles. Tanto que Bolsonaro é um excluído das Forças Armadas, ele é o símbolo maior da quebra da hierarquia. Quem sabe este governo venha a ter o efeito de mostrar que não cabe aos militares ser os árbitros da política brasileira, eles têm de ser o que as Forças Armadas dos Estados Unidos são, e de tantos outros países democráticos, onde cuidam da defesa nacional e que não querem se envolver em política. Nós vimos agora o general Mark e outros, nos EUA, dizerem “eu não tenho nada a ver com isso, com as ações de Trump”. (…) Na Saúde temos um general. É uma humilhação eles passarem por isso, e um povo a vê-los como responsáveis pelo que está acontecendo hoje. (…) É também uma grave humilhação externa ter um brigadeiro brasileiro no Comando Sul dos Estados Unidos, da 4ª Frota. Se houver uma invasão na Venezuela, este terá de entrar em ação. Claro que Washington não vai pedir a opinião dele, mas ele estará lá, legitimando uma ação invasora, para Trump dizer: “Os brasileiros pagam esse fulano para ele trabalhar para mim”. Que humilhação! Isso ocorreu dia 10 de julho, um dia da vergonha nacional. É uma vergonha você ter um oficial brasileiro na cadeia de comando. (…) Em relação ao general Heleno, considero que é uma pessoa que aderiu totalmente ao bolsonarismo e tem complexos e ressentimentos vários. Eu me espantei muito, não por conhecê-lo pessoalmente, estive com ele, mas não o conheci bem. Já o general Braga Netto, que foi chefe do Estado-Maior do Exército, um cargo importantíssimo, foi para a Casa Civil e, mesmo passando para a reserva, cria uma ligação orgânica. Basta dizer que era o cargo do Castelo Branco antes, que era o chefe do Estado-Maior do Exército, e vai para a Casa Civil e mesmo passando para a reserva cria uma ligação. Coisa que o general Heleno não tem, pois estava na reserva há muito tempo. O general Heleno já estava envolvido em política, vivia falando durante o governo Dilma. Havia então o acerto de que eles, os militares, comemorariam o golpe de 31 de março. Heleno participou de manifestações comemorativas, mas já estava na reserva, não podia ser impedido. Uma vez tive de impedir que isso se passasse sob os auspícios de um comando militar, liderado por generais da ativa. (…) No caso da pandemia, mesmo com 80 mil mortos, que é o dado admitido oficialmente, mas que, certamente, passará de 100 mil, do jeito que as coisas vão, é uma tragédia de imensas proporções, e até hoje termos lá como ministro um interino, isso é curioso, porque, no fundo, é um reconhecimento de que ele não é competente. (…) Houve um vazamento, creio eu, para um jornal de São Paulo, da nova versão da política nacional de defesa. Isso é algo muito grave porque deixa de ver a América do Sul como zona de paz, mas passa a ver inclusive os países sul-americanos, o entorno geográfico em geral da América do Sul, como áreas de possível intervenção militar. Existem três documentos que têm de ser apresentados, de quatro em quatro anos, no Congresso para tratar da política nacional de defesa, da estratégia nacional de defesa, e o livro branco da defesa nacional. A ação começa antes do governo Lula, mas a estratégia nacional foi um grande marco, em 2008, eu era chanceler. (…) Então, vazaram trechos do documento, entre os quais o mais grave, na minha opinião, é o que diz respeito ao entorno geográfico do Brasil, portanto, os países vizinhos, onde podem ocorrer crises e tensões capazes de levar a situações para cuja solução o Brasil tem condições de contribuir. Bom, uma coisa é o Itamaraty, a diplomacia contribuir, aliás, sempre contribuiu, num passado mais remoto, até no governo Fernando Henrique Cardoso. (…) Mas, quando você diz que as Forças Armadas têm de contribuir, é um passaporte para a intervenção militar brasileira. É um grande risco, e espero que os nossos congressistas o percebam.

A credibilidade

O maior trunfo de um país que almeja ser grande é a sua credibilidade no plano global. Eu acredito que, hoje, a credibilidade do Brasil está muito abalada, está no lixo, é o pior momento que o País já viveu. Nunca houve, mesmo no pior momento da ditadura, do ponto de vista diplomático, no governo Castelo Branco, do ponto de vista interno com Médici, mas mesmo nesses momentos havia uma preocupação de preservar a forma. (…) Hoje, o Brasil está tomando posições lamentáveis, de evidente submissão aos Estados Unidos, nas questões dos direitos humanos, incluindo o racismo. O Brasil se prestou ao papel do cão de fila dos Estados Unidos, para evitar que houvesse investigação sobre o assassinato de George Floyd, sobre racismo, sobre saúde. O Brasil não copatrocinou uma resolução da Assembleia-Geral da ONU, iniciada pelo México, para defender coisas que nós sempre defendemos, a começar pelo acesso igualitário aos medicamentos, às vacinas etc. Estou dando apenas dois exemplos, mas eu podia dar vários, não tem fim isso. Então, aqui na vizinhança, temos uma atitude hostil em relação à Venezuela. (…) O que fizemos contra a Venezuela e os nossos interesses é algo inédito, que não conheço na história da política internacional, a decisão de retirar todos os nossos diplomatas, como se fez, só para agradar aos Estados Unidos e para dar um ar de legitimidade a Juan Guaidó. É coisa que não existe, porque você está colocando em risco os brasileiros que vivem lá.

EUA vs. China

Vai haver uma situação de disputa inevitavelmente, porque temos uma troca de liderança, sobretudo na área econômica, com evidentes repercussões políticas, e isso vai gerar atritos e conflitos. Como vão ser esses conflitos eu não sei exatamente, mas acho que nesse ponto a eleição de Joe Biden pode fazer a diferença. Não que vá deixar de ter conflitos, mas a maneira de lidar com eles vai ter diferença. (…) O mundo vai se reestruturar, mas isso é muito complexo para resumir em poucas palavras. O que posso dizer é que ao Brasil não interessa tomar partido. O Brasil não tem de entrar na órbita de um ou de outro. Não só o Brasil, mas também os demais países em desenvolvimento, os emergentes. Até a Europa está vendo isso. Mas nós, infelizmente, estamos entrando nisso com o nosso maior parceiro comercial. (…) O Brasil foi o primeiro país a assinar uma parceria estratégica com a China. No governo Itamar Franco, eu tive a honra de participar desse processo e, hoje em dia, às vezes me criticam, o que é natural, eu gosto até de ouvir críticas. O nosso ex-embaixador em Pequim, na época, o Roberto Abdenur, que depois veio trabalhar comigo como secretário-geral do Itamaraty, ajudou a construir isso, essa parceria estratégica. Temos de reconhecer que esse processo foi uma coisa muito positiva do governo Itamar Franco. O recém-eleito presidente da China, Jiang Zemin, fez sua primeira visita de Estado ao Brasil. Antes, ele havia participado de uma reunião multilateral em Seattle, nos EUA. No trajeto, ele parou no Aeroporto José Marti, em Havana, e conversou com Fidel Castro. Em seguida veio para uma visita plena a Itamar Franco. (…) Hoje, o Brasil não é um país confiável. Por exemplo, estou falando de coisas que nem defendo, ou seja, você faz um acordo Mercosul-União Europeia e ao mesmo tempo ataca os presidentes da França e da Alemanha, que são os principais parceiros do lado de lá. Então você não quer o acordo, porque na submissão a Washington esse acordo não entra. É paradoxal, porque ele entra na filosofia de Paulo Guedes de neoliberalizar totalmente, e ainda acho que, no fim das contas, o objetivo é acabar com o programa do submarino nuclear.

Com Agências