Acompanhar evolução de um animal resgatado é gratificante, dizem veterinárias que atuam em ONGs

Acompanhar a evolução de um animal resgatado é gratificante, mas saber que chegam maltratados e que muitos passarão a vida sem ter uma família é triste, dizem veterinárias que atuam em ONGs.

No Dia do Veterinário, lembrado nesta quarta (9), o Bom Pra Cachorro publica dois relatos, como forma de homenagear esses profissionais que cuidam com tanto amor dos nossos filhos peludos e também daqueles que são vítimas da negligência e do abandono.

As veterinárias citam o amor pelos animais desde a infância, relatam o trabalho nas ONGs e a resistência emocional necessária para a profissão.

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Victória Tinoco – veterinária da ONG Paraíso dos Focinhos

Aquela velha história, toda criança quer ser veterinária, mas é realmente isso. Quando era bem pequena tinha aquele amor incondicional pelos animaizinhos, e sempre fui muito curiosa em saber como eles ‘funcionavam’, como eram por dentro, por que comiam, bebiam, respiravam… via muitos programas em canais animais onde mostravam a rotina de um veterinário. Durante a adolescência deixei esse sonho de lado e quando chegou a hora de decidir qual carreira seguir não pude deixar de pensar no meu sonho de infância, que se concretizou.

Trabalhar na ONG é maravilhoso. Além de ter a oportunidade de lidar com casos variados e fora da rotina comum, temos a oportunidade de acompanhar o crescimento e evolução, não só clínica, mas comportamental do animal.

Muitos sofreram maus-tratos e chegam extremamente arredios e com medo de tudo e todos. Recuperar essa confiança deles, através da troca de carinhos e cuidados não tem preço.

Mas como tudo tem seu lado bom e nem tão bom, esse trabalho também nos exige resistência emocional. Grande parte das vezes vemos casos onde o animal foi muito maltratado ou abandonado no fim da vida, e sabemos que levará sequelas mesmo que com todos os tratamentos.

Cuidar de um animalzinho idoso que foi abandonado e saber que assim que ele se recuperar não terá tantas chances igual aos jovens, e que provavelmente terminará sua vida na baia da ONG, por mais que tenha todo carinho possível, é triste. Nada substitui uma cama quentinha e uma família.

O apego a eles é muito grande, nessa rotina intensa acabamos criando laços. Eu mesma já adotei dois peludinhos na ONG e, se pudesse, adoraria muitos outros.

Mas é sempre bom lembrar e conscientizar que só podemos adotar uma vida se tivermos condições de dar o necessário a elas.

Rayssa Cubas Joaquim, 29, atua na ONG Cão Sem Dono

Minha mãe dizia que quando ninguém conseguia me encontrar, quando eu era muito pequena, podiam me procurar dormindo embaixo da mesa com a minha primeira cachorra, a Milly.

Desde pequena, trazia filhotinhos pra casa, ajudava nos partos das gatas que acabavam se aninhando na garagem. Sempre tive muita empatia pelos animais.

Como minha família não poderia pagar uma faculdade de Medicina Veterinária, e eu sempre fiz escola pública, passei em prova de bolsa de um cursinho e fui  aprovada na USP, onde tive diversas oportunidades e desenvolvi projetos de pesquisa de iniciação científica, intercâmbio por mérito acadêmico etc. Neste meio tempo, eu atuava como protetora individual de alguns poucos animais que encontrava nas ruas e também era voluntária em feiras de doação, sempre apaixonada pela causa animal.

Sinto que trabalhar em uma ONG é algo que me completa pessoal e profissionalmente. Como médica veterinária eu amo a medicina em si, porém, poder exercer essa medicina em prol de animais que já sofreram tanto, vendo eles terem uma segunda chance na vida, é extremamente gratificante —principalmente quando são adotados.

Da ONG Cão Sem Dono eu tenho uma “sobrinha“. Conheci a Laika na ONG e me apaixonei pela história dela —havia sido devolvida três vezes pelo comportamento “dificil”. Como eu já tinha quatro cadelas resgatadas e uma gata que não aceita outros animais, não podia ficar com ela. Então, foi adotada por minha tia, para que pudéssemos sempre manter o contato.

Atualmente, casada, tenho dois gatos também resgatados das ruas morando comigo e meu marido em um apartamento. Minhas cachorras, que já estavam acostumadas a morar em casa,  me veem quase todos os dias, mas moram com minha mãe e avó.

O maior desafio de trabalhar com animais resgatados é manter a saúde mental em dia. Apesar de ter ciência que meu trabalho exige esse afastamento para que eu possa pensar nos melhores protocolos, é muito triste a realidade de milhares de cães abandonados, maltratados e doentes que chegam.

Muitas vezes, chegam com problemas tão graves que parecem desafiar a medicina com a grande vontade que eles têm de viver. É difícil também pensar que enquanto alguns ganham uma casa, outros permanecem no abrigo. A vontade é de que todos tivessem a chance de um sofá e um abraço, pois é a única coisa que eles querem em suas vidinhas tão iluminadas.

(Imagem no alto: Adobe Stock)


Com Agências