Abilio Diniz diz que solução para pequeno negócio tem de sair do BNDES

Abilio Diniz, que desde o início da pandemia entrou em um projeto com outros grandes empresários para dar crédito aos pequenos negócios em dificuldade, diz que o movimento está crescendo, mas o dinheiro é limitado diante do tamanho da necessidade.

Ele diz acreditar que a solução vai sair mesmo é do BNDES.

“O BNDES está formatando linhas para poder chegar a esses empresários, em quantidade maior e com um funding muito maior. O que espero é que isso aconteça mais rapidamente, com uma burocracia pequena”, afirma Diniz.

O empresário, que participou da série de lives da Folha, Ao Vivo em Casa, nesta terça (28) falou sobre o projeto do governo de resgatar a CPMF, que ele vê com um tributo fácil de arrecadar, mas talvez devesse ser temporário.

“Esse é um imposto pequeno, fácil de arrecadar, não dá para sonegar e não tem que ficar a Receita inventando moda. Essa é a vantagem e, na minha visão, deveria ser, talvez, temporário. Depende da forma como vai ser montado. É uma maneira de arrecadar um pouco de dinheiro, compensando a desoneração da folha que precisa ser feita”, diz ele.

Como viram no começo da pandemia que os pequenos teriam dificuldade tão grande de crédito? Já vivi muitas crises. Essa é a mais grave. E é global. É uma crise sanitária e se espalhou pela economia. As pessoas são impactadas. Tem sido feita muita coisa para os chamados invisíveis, para quem o governo colocou os R$ 600. Isso é extraordinário. Está chegando às pessoas de menor renda para elas sobreviverem. Algumas estão conseguindo ganhar mais do que ganhariam normalmente, as que tinham renda muito baixa.

Além disso, tem os pequenos empresários. Aquele que tem uma pequena loja, um salão de beleza, prestadores de serviço. De repente, ficaram sem trabalhar. Essas pessoas que não têm acesso aos bancos precisam ser ajudadas.

Quando ele [Eduardo Mufarej, empresário que idealizou o projeto Estímulo 2020 para oferecer crédito com recursos próprios] falou comigo, achei excelente. Imediatamente colocamos nossa participação.

Procuramos conversar com as pessoas que estamos ajudando, com dinheiro e palavras. Fiz duas mentorias com um grupo grande, procurando dar uma palavra de resiliência neste momento.


Só que precisamos de funding, de dinheiro. Gostaríamos que mais gente estivesse contribuindo para atendermos muito mais gente.

No Estímulo 2020, tem empresários do setor de automóvel e do imobiliário. Tem banqueiros também dando recursos com vocês? Tem muita gente ajudando. Conseguimos uma verba razoável aqui em São Paulo. Estamos agora abrindo um segundo módulo. Conseguimos um sucesso muito grande em Minas Gerais. Estamos indo para Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, esperando que outros empresários ajudem.

Nessa primeira rodada em São Paulo foi quanto? Foram R$ 20 milhões, com o que conseguimos ajudar 300 pessoas. SP abrimos agora para mais R$ 20 milhões ou R$ 30 milhões. Conseguimos um funding maior em Minas, mais de R$ 100 milhões.

Agora, este crédito que estamos dando é proveniente de doações de pessoas que estão colocando o dinheiro, que não estão olhando se ele vai voltar ou não. É um dinheiro limitado, dada a quantidade de empresários que precisam.

Por outro lado, o BNDES está formatando linhas para poder chegar a esses empresários, em quantidade maior e com um funding muito maior. Espero que isso aconteça mais rapidamente, com uma burocracia pequena.

A vantagem do Estímulo 2020 é que a concessão de crédito é ágil. Não temos burocracia praticamente nenhuma. Analisamos se a pessoa vinha bem, se tinha outros débitos, se não era inadimplente em outras contas. Analisamos poucas coisas e concedemos o crédito. Esperamos que o BNDES faça isso também e aumente muito essa linha, para colocar na mão dos pequenos que precisam.

Estamos tentando atrair mais dinheiro. Mas também estou empenhado para que o governo coloque mais. O governo tem massa muito maior de funding para atender essas pessoas no Brasil inteiro.

Se o BNDES se organizar para fazer a concessão rápido, é o que o país precisa. Vamos fazer nossa parte, mas é insuficiente para atender todos.

A organização da reforma tributária vem tarde? Nunca é tarde demais para se fazer as coisas. Está sendo feito.

E a CPMF? Não é CPMF, é um imposto sobre movimentação financeira. O governo está falando em taxar o digital, não conheço os detalhes. Um imposto dessa natureza é extremamente regressivo. Acaba incidindo sobre toda a sociedade. Não pode ter alíquota grande. Nenhum imposto indireto é ideal. Esse é pequeno, fácil de arrecadar, não dá para sonegar e não tem que ficar a Receita inventando moda.

Essa é a vantagem e, na minha visão, deveria ser talvez temporário, depende de como será montado. É uma maneira de arrecadar um pouco mais compensando a desoneração da folha, que precisa ser feita e é uma aberração no nosso sistema tributário. Agora, com esse impacto no setor de serviços, não há dúvida que quem estava pagando menos de 4% e vai pagar 12% tem impacto grande. Eu acredito que a desoneração da folha virá, sem dúvida.