Vacina da dengue chega ao Brasil

Distribuição de 500 mil doses pela rede pública do Paraná servirá como laboratório para o País. Como isso vai mudar o combate à doençaCrédito: Adriana Franciosi/Agência RBS

ESPERANÇA Arma que pode mudar o combate da doença é aplicada gratuitamente (Crédito: Adriana Franciosi/Agência RBS)

As primeiras doses da vacina contra a dengue distribuída pelo sistema público no Brasil foram aplicadas na terça-feira 26 em Paranaguá, no litoral paranaense. A cidade foi uma das mais fustigadas pela doença neste ano, com 10% de seus habitantes diagnosticados positivamente. Ela e outros 29 municípios do Paraná fazem parte de uma ação pioneira que pode mudar definitivamente o combate à doença no País. A um custo de R$ 100 a dose, a imunização está sendo bancada pelo governo estadual. Os municípios escolhidos foram os mais castigados pela dengue nos últimos cinco anos, com registro de mais de 500 casos por 100 mil habitantes. Eles funcionarão como laboratório para a eventual adoção da vacina em todo o território nacional. “O estado do Paraná poderá servir como experiência para o restante do Brasil”, disse o ministro da Saúde, Ricardo Barros, na cerimônia de abertura da ação. “É uma iniciativa louvável.”

PIONEIRISMO Guillaume Leroy, vice-presidente mundial da Sanofi Pasteur: teste para o mundo
PIONEIRISMO Guillaume Leroy, vice-presidente mundial da Sanofi Pasteur: teste para o mundo (Crédito:odrigo Feliz Leal/Divulgação Sanofi Pasteur )

Os 30 municípios paranaenses receberão 500 mil doses da vacina. Entre elas estão Londrina, Maringá, Cascavel e Foz do Iguaçu. Em 28 localidades, serão vacinadas pessoas entre 15 e 27 anos, faixa mais atingida pelo vírus localmente. Nos dois casos restantes, de Paranaguá e Assaí, porém, o quadro é tão calamitoso que as autoridades decidiram ministrar o medicamento dos 9 aos 44 anos, ou 60% da população. A estimativa dos governantes é que a campanha proteja, de maneira indireta, de 50 a 90% dos habitantes, já que a doença se alastra menos caso o inseto tenha menos pessoas infectadas para picar. As três doses necessárias serão aplicadas agora e em fevereiro e agosto de 2017. O maior desafio será atrair jovens e adolescentes, mais refratários a aderir às campanhas de imunização coletiva.

EXEMPLO O ministro da Saúde, Ricardo Barros, que acompanhou a vacinação: “Iniciativa louvável”
EXEMPLO O ministro da Saúde, Ricardo Barros, que acompanhou a vacinação: “Iniciativa louvável” (Crédito:José Cruz/Agência Brasil)

Como o Brasil vem perdendo a batalha para o Aedes aegypti e os avanços no controle biológico do mosquito ainda dão os passos iniciais, a imunização pode ser a melhor saída para o País. Um estudo feito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) descobriu que, em cinco anos, casos e mortes decorrentes poderiam cair cerca de 81% se fosse feita campanha via Sistema Único de Saúde (SUS) entre 9 e 40 anos. Para se ter uma ideia, caso o remédio estivesse em circulação desde 2010, no ano passado o número de casos teria caído do recorde de 1,6 milhão para 300 mil. O de mortes, despencaria de 863 para 169 (veja quadro). A campanha paranaense botará à prova, na prática, essa perspectiva. “Sendo um projeto documentado, a experiência do Paraná será muito útil para o Brasil e para os outros países do mundo”, afirma Guillaume Leroy, vice-presidente mundial da Sanofi Pasteur, laboratório que desenvolveu a vacina.

2434-MEDICINA-VACINA-04
*Caso a vacina tivesse sido aplicada à população entre 9 e 40 anos durante um período de cinco anos. Fontes: Ministério da Saúde e Denizar Vianna Araujo (Uerj)

Por enquanto, não há previsão para incorporar o medicamento no sistema público nacional. O primeiro entrave é a falta de conhecimento sobre seu funcionamento em larga escala. “Ainda não temos estudos suficientes”, diz o infectologista Marcos Boulos, chefe da Coordenadoria de Controle de Doenças do estado de São Paulo. “Vai ser avaliado, até o fim desse ano ou o começo do ano que vem, se essa vacina terá impacto. Aí poderemos decidir”. A segunda crítica é que, apesar de a imunização oferecer uma proteção semelhante à da gripe (66%), a eficácia contra o tipo 2 do vírus, que está crescendo no Brasil, é considerada baixa (47%). “A vacina vai fazer efeito justamente no ano em que o vírus contra o qual ela é menos eficiente vai atingir o ápice”, afirma Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses. “É uma nova arma, mas com sérias limitações”. O terceiro problema é do custo. Em maio, o então ministro de Saúde Agenor Álvares, da presidente afastada Dilma Rousseff, disse que, a R$ 88 a dose, o impacto seria de três vezes o orçamento do Programa Nacional de Vacinação: “Fica praticamente impossível incorporá-la”, afirmou na época. Para o governo paranaense, cada dose saiu por R$ 12 a mais.

Como toda doença, a dengue cobra seu principal preço em vidas. Mas o prejuízo também se dá nos cofres públicos. Um levantamento feito em 2015 pela Universidade Federal de Goiás (UFG) calculou que a perda chega a R$ 4,7 bilhões por ano. Um exemplo disso se encontra no município de Foz do Iguaçu, um dos que serão imunizados na campanha. Lá, acumulam-se há anos prejuízos no turismo por conta da enfermidade. “A propagação da epidemia faz com que o visitante não venha para a cidade”, diz Ivone Barofaldi, prefeita em exercício de Foz. “Vemos isso pela taxa de cancelamento de pacotes, além das reclamações do setor hoteleiro”. No Paraná, uma das expectativas das autoridades é que os gastos com a vacina sejam compensados pelo retorno econômico indireto. “Nós investimos R$ 50 milhões nas doses, mas prejuízos pela dengue superaram os R$ 330 milhões por ano”, afirma o governador do estado, Beto Richa (PSDB).

Butantan

Nos últimos anos, houve uma corrida no estudo dessas vacinas no mundo. A primeira a ser aprovada por órgão regulatórios foi a da Sanofi. Uma concorrente desenvolvida pelo Instituto Butantan se encontra na fase final de testes, mas não deverá chegar ao mercado antes de 2018. Enquanto isso, a medicação da empresa francesa começa a chegar às clínicas particulares do Brasil nesta semana. Depois de sete meses de espera, na segunda-feira 25 a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMed) – órgão composto por cinco ministérios que define o preço máximo dos remédios vendidos no território nacional – definiu o valor de R$ 132,76 a R$ 138,53, dependendo do estado. Para o consumidor final, porém, o custo será bem maior, com clínicas falando em até R$ 300 e 400 devido à alta procura. A distribuição deve começar nesta semana, mas o consumo do cliente privado não mudará o quadro da doença no Brasil. “Para que a vacina modifique o panorama de um país continental como o nosso, só mesmo caindo na rede pública”, diz Edmilson Migowski, professor de infectologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente do Instituto Vital Brazil. “Sem isso, será um excelente produto para quem for imunizado, mas não para a população como um todo.”

Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com