Universíade: atletas e voluntários contam trajetória até o ensino superior

28 de agosto de 2017

A diversidade de rostos e cores nas camisas dos atletas universitários que participam da Universíade de Taipei guarda também um leque de trajetórias até o ensino superior, que diferem segundo fatores sociais, culturais e econômicos.

Ao longo da competição, que termina na próxima quarta-feira (30) na capital taiwanesa, a Agência Brasil conversou com atletas, voluntários e trabalhadores sobre como é o acesso, a permanência e as perspectivas de quem estuda em uma faculdade.

“Recebo um salário para estudar”

Dinamarquês recebe salário para estudar nutrição - Foto Vinicius Lisboa/Agência Brasil

Dinamarquês recebe salário para estudar nutrição – Vinicius Lisboa/Agência Brasil

Atleta do levantamento de peso, Ole Thomsen, de 20 anos, é filho de um operário e uma enfermeira, o que faz com que se considere uma pessoa abaixo da renda média na Dinamarca. Isso não impede que ele curse nutrição em uma das melhores universidades do país, já que, além de não pagar mensalidade ou taxa de matrícula, recebe um salário para estudar.

“Todo mundo recebe um salário para estudar que é o suficiente para mim, para viver e comer. Além disso, eu tenho um trabalho de 10 horas por semana, e posso viver e estudar sem problemas. Não tenho dificuldades”, conta o atleta universitário.

Morador de um bairro que descreve como mediano em Copenhague, ele afirma que a escola pública em que estudou tem professores qualificados e o mesmo nível de ensino que as particulares. “É claro que você precisa ser aprovado para entrar na universidade. Basta isso, se candidatar e ser aceito. Mas tem vagas para todo mundo”.

“Quando chove muito, os corredores alagam”

Universitária do Suriname cursa engenharia civil - Foto Vinicius Lisboa/Agência Brasil

Universitária do Suriname cursa engenharia civil – Foto Vinicius Lisboa/Agência BrasilVinicius Lisboa/Agência Brasil

Estudante da única universidade do Suriname, Anjali Paragsingh precisa pagar para cursar engenharia civil na instituição, que pertence ao governo. Com 20 anos, a atleta do tênis de mesa conta que conseguiu uma vaga sem muita dificuldade, com notas um pouco acima da média, mas acredita que morar na cidade é um facilitador.

“A maioria das pessoas da cidade vai para a universidade, mas no resto do país, elas não vão tanto. O preço não é tão alto, mas elas precisam alugar um lugar para ficar, ou morar com alguém da família”, conta Anjali, acrescentando que a universidade não tem alojamento.

A atleta, descendente de indianos que chegaram na época da colonização holandesa, afirma que, apesar de ter boas aulas na universidade, enfrenta problemas com infraestrutura,mesmo pagando mensalidade. “Quando chove, e chove seis meses por ano no meu país, a água alaga os corredores e faz goteiras. Temos alguns problemas. Poderia ser melhor”.

“Faço medicina na melhor faculdade do país”

Tenista de Uganda estuda medicina na melhor faculdade de seu país - Foto Vinicius Lisboa/Agência Brasil

Tenista de Uganda estuda medicina na melhor faculdade de seu país – Foto Vinicius Lisboa/Agência BrasilVinicius Lisboa/Agência Brasil

O tenista de Uganda Clinton Mutumba, de 19 anos, poderia pagar por período na faculdade um valor que acredita estar acima das possibilidades da maioria da população do seu país. Seu bom desempenho acadêmico, no entanto, faz com que seja dispensado desse custo.

“Não foi difícil para mim entrar, foi só passar. E o que a faculdade custa, eu poderia pagar”, conta ele, que não acredita que qualquer um teria a mesma oportunidade que ele em Uganda. “Alguns estudantes não conseguem passar, mas outros têm pais muito pobres que não conseguiriam pagar”. Ele conta que a maioria dos alunos na sua faculdade não é rica, mas formada por estudantes de classe média ou alta.

Clinton explica que sua primeira opção foi cursar medicina, e que foi aprovado aos 17 anos para a Universidade Makerere: “Não temos tantas faculdades no meu país. Temos uma principal, que é de onde eu venho, e temos outras pequenas universidades particulares”.

“Vale a pena ir para a universidade”

Atleta da Romênia cursa educação física para ser treinadora - Foto Vinicius Lisboa-Agência Brasil

Atleta da Romênia cursa educação física para ser treinadora – Foto Vinicius Lisboa-Agência BrasilVinicius Lisboa/Agência Brasil

 A romena Nicolaescu Oana, de 21 anos, estuda educação física porque sonha se tornar treinadora depois que parar de praticar o esporte de alto rendimento. Ela diz que o ensino superior em seu país está aberto a todos que queiram estudar, mas lembra que alguns cursos são mais caros que outros.

“Alguns cursos, como medicina, são muito caros. Mas o restante é normal. Nem todo mundo vai, mas para quem quer, tem vaga sim. A universidade é para quem quer estudar mais”, diz ela, que acredita que a universidade faz com que as pessoas possam ter uma renda melhor e trabalhar em empregos que gostem.

“Vale a pena ir para a universidade. Estou até pensando em fazer outra depois”. Nicolaescu, no entanto, ainda não sabe qual será o próximo curso.

“O problema começa antes da universidade”

Paraguaia estuda e trabalha em Taiwan em busca de melhor qualidade no ensino - Foto Vinicius Lisboa-Agência Brasil

Paraguaia estuda e trabalha em Taiwan em busca de melhor qualidade no ensino – Foto Vinicius Lisboa-Agência BrasilVinicius Lisboa/Agência Brasil

Entre os voluntários e funcionários que fazem a Universíade funcionar, muitos também são universitários em Taipei ou arredores. A paraguaia Camila Gonzalez, de 25 anos, está há dois anos morando em Taiwan para cursar administração e trabalha na empresa que presta serviços para o restaurante da Vila dos Atletas. Ela conta que procurou a ilha asiática por causa da fama de excelência em educação.

“A educação aqui é muito melhor do que na América Latina, de modo geral. Aqui, por exemplo, eu tenho aula o dia inteiro. No Paraguai, minhas aulas eram à noite, porque trabalhar era muito importante para os alunos”.

A universitária paraguaia acredita que o preço de uma graduação não é o maior problema no caminho das pessoas pobres em direção ao ensino superior. “Se estamos falando de pessoas, o problema muitas vezes começa antes, porque elas podem nem ter terminado a escola. Muitas saem da escola porque seus pais precisam que eles trabalhem”.

Beneficiada por um convênio entre o Paraguai e Taiwan, ela acredita que sua vida é mais fácil que a dos estudantes taiwaneses que, apesar das boas universidades, enfrentam rigorosos processos de seleção.

“Depois que terminam a escola, eles fazem uma prova que define se podem estudar isso ou aquilo. Se a nota não for boa o suficiente, eles não podem nem se candidatar”, diz ela, que acrescenta: “É por isso que tantos deles fazem coisas que não gostam. Por causa dessa prova, que define a capacidade deles”.

 “Meus pais querem que eu trabalhe para o governo”

 

Voluntário taiwanês busca experiências em vez de segurança profissional - Foto Vinicius Lisboa/Agência Brasil

Voluntário taiwanês busca experiências em vez de segurança profissional – Foto Vinicius Lisboa/Agência BrasilVinicius Lisboa/Agência Brasil

Para o voluntário taiwanês Lin Kuan yu, de 24 anos, a educação superior na ilha é boa, mas muitas vezes custa caro, o que torna comum recorrer ao financiamento estudantil. Não há universidades gratuitas, exceto se você trabalhar para o governo. “Se você trabalha no governo, ele paga para você estudar”, explica ele, que sempre ouve dos pais que esse é o melhor caminho profissional a seguir.

“Os mais velhos mandam a gente estudar para entrar no governo e conseguir que eles paguem a universidade. E aí você tem um emprego até se aposentar”, diz Lin, que conta com os pais para pagar o curso de engenharia civil e não pensa em seguir esse conselho. “Eu gosto disso, da experiência de estar aqui conversando com as pessoas. Eles querem que a gente só fiquei no escritório com papéis”.

“Na minha família todos se formaram”

Universitária de Trinidad & Tobago estuda economia - Foto Vinicius Lisboa/Agência Brasil

Universitária de Trinidad & Tobago estuda economia – Foto Vinicius Lisboa/Agência BrasilVinicius Lisboa/Agência Brasil

Em Trinidade e Tobago, a atleta do tênis de mesa Catherine Spicer, de 22 anos, veio de uma família em que todos se formam na universidade, mas ela acredita que isso vai ficar menos frequente. Antes totalmente gratuitas, as universidades do país podem passar a fazer cobranças de acordo com a renda dos alunos, o que, na opinião dela, vai dificultar o acesso.

“As pessoas já têm que pagar para morar perto da faculdade. Muitas têm que se mudar e alugar uma casa perto do campus”, diz a estudante de economia, de 22 anos, que destaca que o ensino superior é importante para conquistar um padrão de vida melhor em seu país. “Faz as pessoas conseguirem melhores empregos”, acrescenta. 

*O repórter viajou a convite da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU)

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