Universíade aproxima wushu brasileiro de adversários asiáticos

29 de agosto de 2017

O contato com atletas de ponta do wushu na Ásia, durante a Universíade de Taipei, será uma das heranças da participação brasileira na competição, na opinião do técnico João Ferreira Júnior. Para desenvolver o Brasil no esporte, mais conhecido como kung fu, ele acredita que observar os melhores do mundo e enfrentá-los no tatame vai contribuir para o amadurecimento dos atletas.

“É fundamental para eles estar competindo com esses atletas. Precisamos mais disso, porque a gente é referência em Sul Americano, bate de frente com o Canadá e os Estados Unidos, mas quando vai para o lado asiático, faltam competições pra gente ter esse contato”, afirma o técnico, que se empenhou também em divulgar o wushu entre os atletas e técnicos brasileiros.

“O Brasil está em ascensão [no wushu]. Nossos atletas hoje fazem intercâmbios, viajam. O acesso ao treino é muito melhor, a preparação física”, diz ele.

Apesar disso, as viagens para disputar campeonatos e os uniformes, por exemplo, saem do bolso dos atletas, que precisam se dedicar a outra profissão para financiar sua permanência no esporte. Na Universíade, os custos foram pagos pela Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU) e pelo Ministério do Esporte.

O cenário ainda tímido do wushu na América do Sul, com muitos países sem confederações reconhecidas, faz com que as competições do continente tenham baixa adesão, o que prejudica o cumprimento dos critérios para que os atletas consigam receber incentivos como o Bolsa Atleta, segundo João. A baixa visibilidade do esporte também reduz o interesse de patrocinadores e universidades.

“O que falta é um apoio para que a gente possa dar suporte sequencial à modalidade durante alguns anos. Levando eles para competir três, quatro vezes por ano na Ásia e Europa, em dois anos estaremos ganhando deles”, acredita o técnico.

Atletas

A equipe brasileira de wushu na Universíade teve sete pessoas, e o melhor resultado foi o de Henry Nakata, que ficou na quinta colocação na competição de taolu. Terceiro colocado em um campeonato internacional disputado entre Brasil, Rússia, Índia e China (Brics), o atleta exemplifica o que João afirmou sobre a evolução que vem do contato com os melhores atletas: Nakata já participou do primeiro Campeonato Mundial de Taolu, na China, e também já fez um intercâmbio de cerca de um mês no mesmo país. 

“É um sonho estar aqui. Olimpíada a gente ainda não tem, e essa é uma experiência única. Estou muito feliz pelo que apresentei. Infelizmente, não deu para chegar no pódio. Tive um erro, um desequilíbrio, e em categorias desse nível, qualquer erro vale várias colocações”, diz Nakata, que trabalha, estuda e treina diariamente. “Não dá para se dedicar totalmente como nos países em que o esporte é profissional. Mas como é um esporte que eu amo, a gente se sacrifica para continuar indo bem e não se atrapalhar nenhuma das partes.

Mais nova da equipe, a paulista Andrea Cruz sorri ao lembrar que pôde competir contra a atleta de Macau Li Yi, que conquistou a medalha de ouro, tem títulos internacionais e é como um ídolo para a brasileira. “Quando vi, fiquei babando”, diz ela, que terminou na 11ª colocação.

Filha de uma lutadora de karatê e um boxeador, ela cursa educação física e sonha em fazer uma pós-graduação em wushu, na China.

Estudante de medicina na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e atleta universitário da delegação Brasileira, Rafael Viana, de 21 anos, já teve que gastar mais de R$ 8 mil para estar em um campeonato internacional.

“É uma experiência que a gente nunca imaginou ter, porque a gente sempre pagou o nosso uniforme todo, até o uniforme de treino. É uma experiência que vai ficar pra vida toda”, diz ele, que não pretende parar de treinar para exercer a medicina. Seu objetivo é se especializar em medicina do esporte e continuar sendo atleta de alto rendimento.

Kung fu x Wushu

O técnico da equipe brasileira explica que o termo kung fu não é o mais preciso para chamar a luta, porque se refere à perícia extrema em qualquer atividade, enquanto “wushu” é a palavra que significa arte marcial.

“Quando você treina muito e fica muito bom em alguma coisa, você adquire kung fu naquilo”, explica o técnico. “Pode ser em qualquer coisa”.

O wushu é disputado em duas categorias principais, o Sanda (luta) e o Taolu (demonstração). No primeiro, os atletas são divididos por peso, como no judô e no taekwondo.

Já no taolu, as provas incluem armas, como facão e espada, ou mãos livres, e uma rotina é demonstrada pelos atletas, cumprindo movimentos obrigatórios e acrescentando outros que são de seu estilo. Árbitros atribuem notas, que são rankeadas e definem a classificação.

*O repórter viajou a convite da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU)

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