Sanha arrecadadora

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– No Brasil, o buraco na economia tem sempre que ser pago pelos consumidores e contribuintes. Todos os sistemas parecem ser programados para prejudicar o cliente –

Nestas últimas semanas fui vítima da sanha arrecadadora que grassa neste país. Começou com uma compra na Casa & Vídeo, cujos preços promocionais aumentaram quando passei no caixa. E pedir o estorno do cartão foi pior a opção. Vou ter que pagar o valor estornado, sem ter trazido nenhuma mercadoria para casa, para receber um crédito mês que vem. Enquanto isso, a Casa & Vídeo ganha uns trocados investindo o dinheiro que terei que pagar. Depois, recebo uma cobrança de multa de um IPVA, que eu já tinha pago, em 2013. A Secretaria Estadual de Fazenda diz que eles erraram o valor e podem cobrar a diferença, e eu tenho que pagar juros e correção em cima de um erro deles. Por fim, chega uma diferença do Imposto de Renda para pagar. A síndrome de arrecadação do Joaquim Levi está se espalhando assustadoramente.

Fui toda contente fazer umas últimas compras para arrumar a casa que acabou de sair de uma obra. Depois de uma hora escolhendo as coisas, de olho no encarte das promoções, ao terminar de passar as compras e conferir a nota, verifiquei que vários produtos com preços promocionais tiveram o valor aumentado quando passei no caixa. Reclamei, pedi o desconto da nota, mas ouvi da caixa que como eu tinha pago com cartão de crédito não poderia descontar nada. E já que eu tinha visto a diferença, a solução seria levar outros produtos no valor do desconto. Não concordei. Não quero mais produtos, quero o desconto anunciado pela rede. E a moça só repetia que o problema era com o sistema e não era possível fazer nada.

A única solução dada pela atendente foi estornar o valor e passar de novo o cartão. Ainda bem que eu não fiz isso, ia levar duas facadas financeiras da Casa & Vídeo. Uns dez dias depois, recebo a fatura do cartão. Veio a cobrança e não veio o estorno. Já pensou se tivesse feito a compra de novo? Teria que pagar o dobro. Liguei para a Casa & Vídeo e disseram que o sistema deles é assim, você tem que pagar num mês e só recebe o crédito no mês seguinte. Quer dizer que o sistema age contra o cliente. Liguei para o cartão de crédito, que confirmou. A loja pode levar um mês para estornar, mesmo que a compra e o estorno tenham sido feitos no mesmo dia, com a diferença de meia hora.

A Casa & Vídeo de Teresópolis perdeu mais de R$ 500 nesta compra e levou tanto tempo para fazer o estorno, que escrevi no livro de reclamações e rascunhei uma carta para mandar para o jornal. Teimosamente, fiz outra compra na loja de Botafogo da rede. E, no dia seguinte, ao trocar um produto, foi necessário chamar a gerente porque um lençol, que não estava na promoção, já tinha aumentado de preço. Reclamei que fui trocar só a cor, era o mesmo produto do dia anterior. Outras pessoas em torno reclamavam que o preço da prateleira não era o mesmo que passava no caixa. E por causa disso, a gerente deixou que a troca de cor do lençol não saísse mais caro para mim. Não quero comprar mais nada na Casa & Vídeo tão cedo. Era para ter sido uma boa experiência de compra, uma boa lembrança, mas virou um prejuízo financeiro.

Nestes mesmos dias recebo uma cobrança de um IPVA de 2013, dizendo que se eu não pagasse, meu nome ia para a dívida ativa. Eu tinha pago e recebera do Detran o documento do carro daquele ano. Com os comprovantes, fui na Secretaria de Fazenda, pois ninguém atende os telefones que constam na carta de cobrança e no site não há como tirar esta dúvida. O atendente disse que tinham cobrado a menos em 2013 e eu tinha que pagar a diferença com juros e correção, somando tudo R$ 5.735. Reclamei de ter que pagar juros e correção já que eles é que erraram. A resposta foi que eu podia reclamar, mas na área administrativa não ia adiantar e eu teria que procurar a Justiça. Aí desisti, já estou com três processos na Justiça e até agora só tenho recebido injustiças. E pela razão mais simples: os juízes não leem o que a gente escreve no processo, entendem por alto e julgam pela metade. Temos que ficar explicando, pedindo correção, muito lento, tudo muito desgastante e caro.

E, para fechar a semana, recebo uma cobrança do Imposto de Renda porque errei em uma conta da diferença que tinha que pagar. A multa é quase do mesmo valor da diferença, mas ainda tem a correção monetária. E lá vem mais uma facada financeira de R$ 1.600, que tem que ser paga até o fim do mês.

No Brasil, o buraco na economia tem sempre que ser pago pelos consumidores e contribuintes. Já estão até falando na ressurreição da CPMF. Todos os sistemas parecem ser programados para prejudicar o cliente. Precisamos ser muito atenciosos. Por exemplo, ficar de olho nos valores das mercadorias que passam nos caixas. Eles anunciam as promoções, mas “esquecem” de mudar o preço no sistema. Isso acontecia mais em supermercados, agora está aumentando a abrangência. Também deveria ser proibido que o estorno não viesse na mesma fatura, principalmente se as duas coisas foram feitas no mesmo dia. Isso acontece também com as cobranças indevidas nas faturas, tem que pagar para receber o crédito na próxima fatura. Isso é usar indevidamente o dinheiro do cliente. Imagino quanto uma grande rede ganha com este sistema, pois são milhares de compradores. Errar acontece, mas insistir no erro para ganhar dinheiro é má-fé. Se o cliente sabe que deve e deixa de pagar é justo que pague com correção. Mas pagar juros pelos erros dos outros é injusto, é se locupletar do dinheiro alheio.

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