Rede alimenta doping no esporte e no futebol de elite do Brasil, diz TV alemã

10 de junho de 2017

Estadão Conteúdo

– Roberto Carlos, ex-lateral da Seleção, seria um dos envolvidos no escândalo –

Alemanha – Com amplas falhas de controle e pressão de instituições, o doping é uma realidade do esporte brasileiro e chega até mesmo ao futebol de elite. A denúncia foi revelada pela televisão ARD neste sábado e aponta ainda para o suposto envolvimento de ex-jogadores da seleção, como Roberto Carlos.

Roberto Carlos teria se beneficiado de doping durante a carreira

Roberto Carlos teria se beneficiado de doping durante a carreira

Foto: Marcelo Regua / Agência O Dia

De acordo com a investigação, o País não conta com um sistema de controle suficiente, o treinamento é inadequado, o abastecimento de produtos é amplo, existe pressão das instituições e a ação judicial falha.

Em 2014, a ARD revelou a forma pela qual o governo russo promovia o doping de seus atletas. Sua emissão levou o Comitê Olímpico Internacional (COI) a banir o atletismo da Rússia dos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro. Desta vez, a investigação é focada no doping no futebol brasileiro e no esporte nacional.

Apresentando-se como agente estrangeira de jogadores de futebol em busca de anabolizantes, a equipe de TV entrou em contato com uma rede de abastecimento clandestina e chegou até mesmo a visitar uma fábrica de anabolizantes.

Um dos médicos que prometia fornecer o material fica em Piracicaba, Julio Cesar Alves. Ao conversar com o grupo alemão, sem saber que falava com jornalistas, ele revelou como seus produtos abasteciam jogadores, como o ex-lateral da seleção brasileira. Com uma câmera escondida, o grupo ouviu do médico ofertas por clenbuterol e a orientação aos clientes a deixar de tomar o produto 15 dias antes de uma competição para evitar serem pegos em um exame de doping. Alves ainda promete a eles dez doses de EPO.

Na visita, o pacote de produtos saia por R$ 10,5 mil, que poderiam ser pagos em quatro vezes.

Uma das atletas pegas no doping no Brasil foi Eliane Pereira. Aos jornalistas, ela garante que não sabia o que Alves receitava e tomava acreditando que era algo legal. Mas admite que o médico ensinava como escapar dos testes e como teve um encontro com um “grande ídolo” da seleção brasileira no consultório do médico. Eliane, porém, se recusa a dar seu nome.

Pego numa gravação, Alves insiste que já forneceu seus produtos a dois jogadores da seleção. “Eu tratei de Roberto Carlos. Ele chegou a mim com 15 anos”, disse. De acordo com a ARD, documentos de uma investigação no Brasil também apontariam o envolvimento do ex-lateral. Mas procuradores disseram desconhecer o caso. Procurado, o ex-jogador não deu uma resposta à emissora.

IMPORTAÇÃO – De acordo com a investigação, parte dos produtos no mercado brasileiro é importada. Em Assunção, no Paraguai, o grupo de jornalistas chegou a ser levado a uma fábrica de anabolizantes. No encontro, os empresários confirmaram que vendiam anabolizantes e que seu principal mercado era o setor de futebol do Brasil, em grandes quantidades.

“Vendemos para todos os esportes, como atletismo”, disseram. “Há pessoas ainda que compram para jogadores que querem ainda atuar quando são mais velhos, entre 34 ou 35 anos ou para aqueles que tiveram alguma lesão”, explicou. Segundo o empresário, o produto é enviado para Brasil e Argentina. “Dois ou três fisioterapeutas de clubes brasileiros compram isso aqui para seus jogadores em fase de recuperação de lesões, em um momento que não pode ser detectado em exames de doping”, completou.

A investigação ainda aponta como as falhas nos controles seriam amplas no Brasil. Uma das investigações da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) ocorre justamente com empresas que são terceirizadas no Brasil para realizar os testes

Numa gravação telefônica que está de posse da Wada, uma das empresas deixa claro que o organizador de um torneio pode escolher quem ele quer testar. Ao ser questionada sobre quem seria testado, a empresa responde: “Normalmente, testamos os três primeiros colocados e mais três outros. Mas você pode decidir isso”, disse.

Entre os diversos especialistas e pessoas excluídas do controle de doping no Brasil, a ARD fala ainda com Luis Horta, ex-chefe de planejamento da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) e que denunciou as autoridades brasileiras por terem impedido exames fora de competições com atletas nacionais na preparação para a Olimpíada do Rio.

De fato, por meses, os atletas brasileiros deixaram de ser testados fora de competições, e ex-responsáveis acusam o COB de fazer pressão para que os atletas não fossem examinados na preparação final para os Jogos de 2016. “Antes dos Jogos Olímpicos, estávamos sob pressão a não realizar testes de doping sem aviso prévio”, disse Horta. “Sob pressão do Comitê Olímpico do Brasil”, esclareceu. “Eu percebi que eles não têm o mesmo objetivo. Eles querem medalhas, medalhas, medalhas. Limpas ou não”, atacou.

De volta ao seu país de origem – Portugal -, Horta afirmou não se sentir seguro no Brasil. “Existem instituições que são um estado dentro de um estado.”

Marco Aurelio Klein, ex-responsável no Ministério do Esporte, também denunciou o abandono de parte do controle para a Olimpíada. Segundo ele, o último controle de doping sem aviso prévio ocorreu no início de julho de 2016, mais de um mês antes dos Jogos começarem. Em um ano, a ARD apurou que apenas cinco testes de surpresa foram realizados em todo o Brasil.

Klein também denunciou o fato de que as medidas que tinham sido planejadas e o treinamento feito antes dos Jogos foram “ignorados” no momento do evento.

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