Questão de independência

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– A Grécia cansou da receita ortodoxa aplicada pela troika. Já são cinco anos de arrocho monetário e fiscal sem qualquer resultado, mas com um custo social enorme –

Primeiro-ministro do país que é considerado o berço das democracias ocidentais, Alexis Tsipras mostrou coerência ao submeter a um referendo popular a decisão de acatar ou não as imposições da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu. Negociou até o limite do possível, mas, diante das exigências draconianas que envolvem o empréstimo de 15,5 bilhões de euros, preferiu ouvir a opinião do eleitorado grego. Estão em jogo o destino da Grécia e a provável exclusão da Zona do Euro, com os sacrifícios que isto vai significar. É conveniente, portanto, que a decisão seja de toda a nação, e não apenas de uma única voz, por mais legítima que seja. Tsipras surpreendeu os parceiros europeus, mas está certo. E também agiu bem ao decretar o feriado bancário até a segunda-feira (6), dia seguinte à consulta sobre as condições do empréstimo.

No mercado financeiro, o pessimismo aumenta, pois se considera cada vez mais concreta a possibilidade de a Grécia votar “não” . As Bolsas de Valores caíram pelo mundo afora e a Bovespa não foi exceção. Como reflexo do temor dos investidores, o dólar se valorizou frente a 12 das principais divisas globais. No Brasil, subiu para R$ 3,146. Também paira no ar a ameaça de um “default” grego. Em entrevista coletiva, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, considerou correta a oferta feita ao primeiro-ministro Tsipras. “Nossa única preocupação foi fazer um acordo equilibrado e justo. Este é certamente um pacote exigente e abrangente, mas é um justo… Este não é um pacote de austeridade estúpido”, afirmou. Ele recomendou que os gregos votem a favor das exigências dos credores internacionais para que o empréstimo de liquidez seja liberado. “Todo o planeta consideraria um ‘não’ grego à questão apresentada como um significado de que a Grécia quer se distanciar da zona do euro e da Europa”, advertiu Junker.

Tudo indica, porém, que o povo grego está cansado da receita ortodoxa aplicada pelo BCE, o FMI e a Comissão Europeia — a chamada “troika”. Já são cinco anos de arrocho monetário e fiscal sem qualquer resultado, mas com um custo social enorme. O corte de despesas públicas exigido pelos credores só agrava a recessão e o desemprego. Apesar do esforço, a economia não responde e a arrecadação não para de cair. Ao contrário de Junker, que apela aos gregos para que não cometam “um suicídio”, dois conceituados economistas, ambos vencedores do Prêmio Nobel, saíram em defesa de Alexis Tsipras e anunciaram que, se votassem no referendo de domingo, dariam um “não” aos termos impostos pelos credores internacionais. Para Joseph Stiglitz, de um lado está a promessa de “austeridade quase sem fim” em troca de um alívio temporário da dívida. Mas, de outro, o voto no “não” deixará aberta a possibilidade de a Grécia, com sua tradição democrática, agarrar seu destino com as próprias mãos. “Eu sei como votaria”, disse Stiglitz.

No mesmíssimo tom, Paul Krugman afirmou que mais austeridade não levará a lugar algum. Para ele, a adesão ao ultimato da troika “representaria o abandono final de qualquer pretensão grega de independência”. Portanto, o mercado financeiro que ponha as barbas de molho. Não é preciso consultar o Oráculo de Delfos, como faziam os antigos, ou o cego Tirésias, como fez Édipo Rei. Trata-se de uma questão de poder. E a Grécia vai votar contra a troika. Custe o que custar.

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