Profissão: Papai Noel

Herculano Barreto Filho

– Formado numa escola especializada em fazer bons velhinhos, um exército de senhores de barba branca com idades entre 60 e 80 anos invade os shoppings do Rio com a missão de manter o espírito natalino –

Rio – Eles têm entre 60 e 80 anos e barba branca bem cuidada e encarnam um personagem capaz de inseri-los no mercado de trabalho, apesar da idade avançada. Na terça-feira, uma turma de 50 alunos da Escola de Papai Noel do Brasil vai receber os certificados do curso numa solenidade de formatura na Praça Mauá, na Zona Portuária. E, para chegar ao evento, um verdadeiro exército formado por bons velhinhos vai abandonar o trenó e embarcar no moderno VLT.

Depois da formatura, o grupo se divide para encarnar, nos próximos dias, o personagem que simboliza o Natal em shoppings centers, hospitais, orfanatos e pelas ruas do Rio. A remuneração varia de R$ 3 mil a R$ 15 mil. Mais do que uma boa remuneração em meio às festas de fim de ano, o ofício representa a renovação do espírito natalino que atinge toda a família desses profissionais.

Em atividade há 23 anos, a Escola de Papai Noel do Brasil formou mais de 500 profissionais. A empresa dá aulas gratuitas de interpretação, dicção, improvisação, postura, maquiagem, canto, exercícios de fonoaudiologia para o tradicional ‘ho-ho-ho’ e exercícios em academia. Depois, agencia a contratação deles e fornece até o uniforme do Bom Velhinho, que custa cerca de R$ 1,5 mil. “Temos uma mão de obra qualificada. Não adianta vestir roupa vermelha e sair por aí dizendo ‘ho-ho-ho’. O Papai Noel precisa estar preparado para não deixar a criança sem resposta. Ele tem que ter barba natural, não ter vícios e gostar do que faz”, enumera Limachem Cherem, fundador e diretor do grupo.

Requisitos que fazem parte da formação de Simon Komarov. Com 69 anos, quatro filhos, quatro netos e dois bisnetos, ele adotou até o nome artístico de Saymon Claus para trabalhar. Na casa onde mora, em Vila Isabel, mantém um quarto convertido numa espécie de QG do Bom Velhinho. Lá, fixou na parede mais de 50 cartas recebidas de crianças nos shoppings onde trabalhou.

Uma história que começou a ser escrita desde 2012, depois de trabalhar por 35 anos como representante comercial. Na vila onde mora, ainda aparece vestido de Papai Noel na noite de Natal, para entregar presentes às crianças que moram lá.

E adota uma espécie de ritual. Todo ano, faz a barba no dia 26 de dezembro. E só volta a cultivá-la a partir de 8 de janeiro. Em julho, intensifica os cuidados, usando xampu especial e até secador depois do banho. “Eu sou Papai Noel o ano inteiro. Vivo essa fantasia e mantenho o espírito natalino comigo. Distribuo pra todo mundo uma pulseira com a frase ‘Eu acredito em Papai Noel’. Comecei nisso pelo dinheiro. Mas não há nada que pague o carinho que recebo das crianças”, sorri Simon.

Assim como o colega de curso, Ubirajara Costa dos Santos, de 64 anos, também encarnou o personagem. Mas havia uma vida antes de ser Papai Noel. Ele já trabalhou numa multinacional com contabilidade e acabou se aposentando depois de trabalhar como motorista de ônibus. Mas só passou a se sentir realizado ao viver o Bom Velhinho, função que desempenha há nove anos.

Tudo começou quando as pessoas começaram a chamá-lo de Papai Noel nas ruas, por ostentar uma longa barba branca. Foi aí que Ubirajara decidiu procurar a Escola de Papai Noel. E, de lá para cá, viveu momentos de emoção. Como quando a neta, então com 4 anos, o identificou ao sentar no seu colo quando ele vivia o personagem num shopping. “Sempre falo para as crianças que o Papai Noel é o elo entre o amor e a família”, diz Ubirajara, que neste ano vai trabalhar num shopping em Manaus, capital do Amazonas, já que a ideia do grupo é levar o Bom Velhinho formado na Escola de Papai Noel para todo o país.


Outros destaques: