Prevenção tem que ser feita agora para evitar surto de chikungunya

Francisco Edson Alves

– Fiocruz alerta sobre a urgência de se eliminar focos do Aedes aegypti ou este será o ‘verão da febre’ –

Rio -Se a população e as autoridades em saúde não intensificarem urgentemente ações para eliminação de focos do Aedes aegypti, o Estado do Rio vai enfrentar, no próximo verão, uma epidemia grave e inédita da febre chikungunya. A doença, muitas vezes incapacitante e altamente dolorosa, é transmitida pelo mesmo mosquito, causador também da dengue, zika e febre amarela. O alerta é do infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rivaldo Venâncio da Cunha. Ele revela que estudos indicam que a ameaça é real e foi tema de seminário recente promovido pela vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da mesma instituição.

“A conclusão de uma iminente epidemia de chikungunya se baseia, principalmente, no fato de que os vírus da dengue e zika já circularam com uma razoável intenside no Estado do Rio nas últimas décadas. Isso significa que um bom percentual da população já possui anticorpos, sobretudo contra a dengue, ao contrário da chikungunya”, justifica Rivaldo.

De acordo com a Superintendência de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da Secretaria Estadual de Saúde (SES), em território fluminense foram notificados 13.056 casos suspeitos de chikungunya, sem óbito, entre 1º de janeiro e 23 de agosto deste ano, último balanço do Sistema Nacional de Agravos de Notificação. No mesmo período foram registrados 75.242 casos de dengue, com quatro mortes confirmadas, e 63.237 suspeitos de Zika Vírus.

Rivaldo, porém, garante que ainda há tempo de a sociedade se organizar para evitar um surto grande de chikungunya. “Pela primeira vez os sinais são bem claros de qual epidemia certamente o Rio enfrentará. Por isso, ainda dá tempo de nos antecipar. Para evitar casos de chikungunya ‘em cascatas’, e possíveis mortes, no primeiro semestre de 2017, a forma mais eficaz é eliminar a maior quantidade de focos de proliferação do Aedes o mais rápido possível”, adverte. 

Primavera é a estação que mais preocupa

A primavera, iniciada semana passada, é a estação que mais preocupa a comunidade científica, pois é marcada pela intensificação das chuvas e início da elevação da temperatura, condições climáticas perfeitas para a proliferação do mosquito.

Após a fêmea do Aedes encontrar um local para depositar seus ovos, entre sete a dez dias centenas de novos mosquitos chegarão à fase adulta, quando, então, estarão aptos a transmitir os vírus.

“A forma mais fácil de controlar o Aedes aegypti é interrompendo seu ciclo de vida. É fundamental que a população se empenhe em eliminar todos os tipos de recipientes que acumulem até mesmo quantidades insignificantes de água, como uma tampinha. São potenciais criadouros nas residências. Uma atividade de verificação semanal de apenas 10 minutos é o suficiente para evitar a proliferação do inseto”, afirma Denise Valle, pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

“Não adianta o cidadão torcer por vacina, se ele não elimina focos em casa”

O número de depósitos de focos do Aedes aegypti eliminados ou tratados na capital carioca vem caindo ao longo dos últimos quatro anos: passou de 4.901.407 em 2012, por exemplo, para 4.355.406 no ano passado. Este ano, até quinta-feira, foram 2.727.459 depósitos extintos.

A Secretaria Municipal de Saúde interpreta que a redução é, entretanto, positiva, pois indicaria supostamente maior eficiência dos agentes de vigilância ambiental em saúde. O número de visitas desses profissionais a domicílios passou de 7.677.310 em 2012 para 8.951.318 este ano.

Mesmo assim, críticos ainda apontam falhas do governo, que não conseguiria enxergar até mesmo possíveis criadouros gigantes no município. Como a piscina do campus desativado da Universidade Gama Filho, em Piedade, onde ano passado foram colocados exemplares de peixes da espécie Poecilia reticulada, conhecidos como barrigudinhos, que devorariam larvas de mosquito. Ainda não há balanço oficial sobre a experiência.

Mas como a maioria dos focos do Aedes, em torno de 80%, está no ambiente domiciliar (dentro das residências ou no seu entorno), o pesquisador Rivaldo Venâncio da Cunha lembra que o problema não é só dos governantes.

Segundo ele, tanto os governantes como a população de um modo em geral têm hoje mais consciência da urgência da eliminação dos focos, que deve ser feita de forma permanente. “Mas só ter consciência não elimina riscos. É preciso ter ações eficazes. Não adianta o cidadão ficar torcendo pelo sucesso de uma vacina, se ele não cuida do interior de sua casa e nem do próprio quintal. Não eliminar focos onde mora é como um fumante que tem consciência que se não parar de fumar vai morrer, mas continua alimentando o vício”, compara.

Pedidos de vistorias podem ser feitos pela central de atendimento da prefeitura, pelo número 1746.


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