Pessoa, o grande corruptor

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– Na delação do empreiteiro, chama a atenção a falta de informação sobre os R$ 4,5 mi que a UTC doou à campanha de Aécio Neves em 2014 –

Há alguns dias, um jovem repórter, ao ouvir comentário que fiz sobre uma reportagem da “Veja”, teve a seguinte reação: “Ah, você ainda lê a revista dos inimigos!”. Eu não sabia que o carro-chefe da Editora Abril estava sendo tratado desta maneira no meio universitário e fiquei bastante surpreso. Confesso que fiquei decepcionado. Trabalhei na “Veja” por oito anos, de 1973 a 1981, época em que a revista, sob o comando de Mino Carta e depois com Elio Gaspari de editor-chefe, lutou contra a censura e pela volta do país à democracia. Lembro-me bem que Gaspari, em 1983, divulgou em primeira mão a música “Vai Passar”, de Chico Buarque, celebrando os estertores da ditadura militar. Infelizmente, o tempo passou e, hoje, “Veja” tornou-se “inimiga” dos jovens politizados que sonham com as bandeiras românticas da esquerda. É apontada como porta-voz da direita. Até gente experiente que critica os erros cometidos pelo PT deixou de ler a revistona. E com certa razão.

Ao atirar contra os governos de Lula e Dilma Rousseff, “Veja” abandonou qualquer resquício de imparcialidade. Fez sua opção política. A ordem é ir atrás de denúncias (bem fundamentadas ou não) contra os petistas. No auge do mensalão, foi publicada, na carta ao leitor, uma foto da equipe de Brasília, em que o chefe da redação Policarpo Júnior posava à frente dos repórteres, imitando Eliot Ness, o célebre agente do Tesouro dos EUA que combateu Al Capone. Dizia-se que eles eram sentinelas avançados da Justiça, num evidente exagero. Para azar da Abril, meses depois, foi revelado que Policarpo era amigo do contraventor Carlinhos Cachoeira, com quem teria viajado para os Estados Unidos. Foi uma bomba. Mas Policarpo justificou-se explicando que só poderia ter acesso a casos de corrupção se mantivesse relações com bandidos. Cachoeira, portanto, seria apenas uma fonte de informações. 

O episódio caiu no esquecimento. Mas, esta semana, “Veja” voltou a publicar foto de Policarpo à frente dos repórteres. Diz que a equipe presta serviço aos governados e traz “os espantosos relatos” da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa. Na verdade, trata-se de sequência da capa “Os segredos do empreiteiro”, publicada em fevereiro com a chamada: “O que Ricardo Pessoa, da UTC, preso em Curitiba, quer contar sobre a Lava-Jato”. Lá, dizia-se que o empreiteiro, na delação, revelaria detalhes do esquema de corrupção da Petrobras. Agora, a revista divulga a lista de acusações. Trata o empreiteiro como dono da verdade e dá todas as denúncias como boas. Mistura doações legais e ilegais. E põe no mesmo nível a contribuição de R$ 20 milhões ao ex-presidente Fernando Collor e de R$ 150 mil à campanha do deputado Júlio Delgado, do PSB mineiro. Qualifica de “passa-moleque” o fato de um deputado não ter facilitado um negócio da UTC.

Chama a atenção a falta de informação sobre os R$ 4,5 milhões que a UTC doou à campanha de Aécio Neves em 2014. “Veja” põe no alto da lista os R$ 7,5 milhões doados à campanha de Dilma, mas se esquece totalmente do tucano. Também não se preocupa em contar quem é Ricardo Pessoa, o chefe do cartel que assaltou a Petrobras. O grande corruptor não é o alvo da revista da Abril. É exatamente por seu olhar enviezado que “Veja” deixou de ser lida pelos jovens de esquerda.

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