Palmeira considerada extinta é encontrada no Mato Grosso do Sul

Pesquisadores da Embrapa Pantanal (MS) e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) encontraram exemplares da palmeira Trithrinax schizophylla, conhecida como carandilla, considerada extinta no Brasil. Trata-se do primeiro registro comprovado da espécie no País.

O encontro ocorreu na região do Chaco, no Município de Porto Murtinho, no sudoeste de Mato Grosso do Sul, durante desenvolvimento de estudos sobre a fauna.

A equipe inicial foi formada pelo pesquisador Walfrido Tomás, da Embrapa Pantanal, o bolsista André Restel Camilo e o ornitólogo Alessandro Pacheco Nunes, da UFMS. Posteriormente, a equipe retornou à região acompanhada da bolsista Marcelle Aiza e da professora Iria Hiromi Ishii, do campus de Corumbá da Universidade.

O material foi coletado, identificado, fotografado e depositado nos Herbários COR, da UFMS, e CPAP, da Embrapa Pantanal.

Conservação

"Por se tratar de um ecossistema único, como o Cerrado e outras ecorregiões brasileiras, o Chaco possui muitas espécies raras e ameaçadas. Restam apenas 13% de sua composição florestal original na região de Porto Murtinho e, em melhor situação, está sua vegetação inundável", afirma Tomás. Os pesquisadores sugeriram que essa palmeira integre a Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas na categoria "criticamente em perigo", em função do pequeno número de exemplares que restaram em território nacional, a fim de promover a proteção da espécie.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) já considera a carandilla vulnerável na América do Sul, continente onde ela ocorre. Para os autores, é estratégico eleger o Chaco como prioridade de conservação no Brasil, tanto no nível federal como no estadual. Não há Unidades de Conservação no Chaco brasileiro.

Os exemplares foram localizados em áreas de Reserva Legal de duas propriedades de Porto Murtinho. Isso reforça o importante papel que essas áreas cumprem para a proteção da vegetação nativa, como preconiza o Código Florestal Brasileiro.

Urbanetz explica que as propriedades com tamanho acima de quatro módulos fiscais devem conter áreas de Reserva Legal. A definição do módulo fiscal varia por município. Em Corumbá, por exemplo, corresponde a 110 hectares; em Brasília, cinco hectares; em Porto Murtinho, onde foram localizadas as palmeiras, um módulo fiscal equivale a 80 hectares.

O que é o Chaco?

De acordo com a botânica Catia Urbanetz, da Embrapa Pantanal, o Chaco é um ecossistema encontrado no norte da Argentina, oeste e norte do Paraguai e sul da Bolívia, e que chega até a porção sul do Pantanal, nas sub-regiões de Nabileque e Porto Murtinho. "O Chaco dispõe de uma riqueza florística distinta e de uma fitofisionomia própria, composta por espécies espinhentas, em sua maioria, com a presença de muitas cactáceas. Há formações abertas, arbustivas e florestas chaquenhas", explica.

Tal achado, de acordo com Tomás, reforça a necessidade de conservação do Chaco no Brasil, restrito ao Município de Porto Murtinho, para que a palmeira carandilla não seja realmente extinta. "A carandilla é uma palmeira de pequeno porte que seria muito apreciada para o paisagismo", diz Urbanetz. Para isso, de acordo com a pesquisadora, seria interessante promover uma seleção de matrizes com vistas a um programa de melhoramento genético com essa finalidade.

A carandilla se parece com a carandá, palmeira maior e que já é utilizada no paisagismo urbano de Corumbá e de Campo Grande (MS). A copa das duas palmeiras é arredondada e as folhas palmadas. A carandá é uma planta típica do Chaco, ou seja, ocorre em maior abundância nesse ecossistema.

Porém, ela também é encontrada em outras áreas no Pantanal, em solos salinos inundáveis. Às vezes as duas espécies ocorrem juntas, mas a diferença mais notável é que a carandilla pode crescer em touceiras e a carandá, não. Também são consideradas típicas do Chaco a canjiquinha, o castelo, a aromita, a mangava-brava, o labão, a barriguda, o olho-de-boi e o quebracho.

Já a carandilla é considerada endêmica do Chaco, isto é, só ocorre nessa região. Outros exemplos de planta endêmica dessa formação são o quebracho-branco e o quebracho-vermelho, que foram alvo de intensa exploração no início do século passado para a produção de tanino.

Na classificação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Chaco é chamado de savana-estépica florestada. Segundo Tomás, essa formação pode ser considerada uma das ecorregiões mais ameaçadas do Brasil, e mesmo na Argentina, Paraguai e Bolívia têm sido registradas as maiores taxas de desmatamento no mundo atualmente.

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