Mundo: Cariocas muito abaixo de zero

30 de dezembro de 2017

Eduardo Pierre

– Migrantes no Canadá contam como é a vida a 30 graus negativos –

Rio – Já tem carioca praguejando por causa do início do verão e dos termômetros acima de 35°. Mas como é viver com essa temperatura… abaixo de zero? Esta semana o Canadá, país cujo inverno é tradicionalmente rigoroso, tem enfrentado onda de frio poucas vezes vista. O DIA conversou com alguns brasileiros que vivem por lá e perguntou: o que é pior? O calorão do Rio ou a friaca de Toronto?

“Prefiro o frio de -30° porque aonde quer que eu vá os ambientes são aquecidos, ao contrário do Rio, onde nem todo lugar (inclusive a maioria dos cômodos nas casas e nos apartamentos) tem ar-condicionado”, opina Flavia Monteiro. “Mas na rua é tudo horrível. Não consigo ficar muito tempo no calor de 45° nem no frio de -30°”, pondera. Tatiana de Oliveira faz coro. “Pior? Eu diria os 45° do Rio, porque fico tonta com o calor extremo. Já o frio, pode-se enfrentá-lo com camadas a mais no vestuário.”

Só neva se não estiver muito frio%2C mas é a baixa temperatura que conserva a neve e permite o acúmulo

Só neva se não estiver muito frio%2C mas é a baixa temperatura que conserva a neve e permite o acúmulo

Foto: Foto de Leitor/Tatiana de Oliveira

Frio não é tudo igual

Um mito, garantem os cariocas canadenses, é achar que abaixo de zero todo frio é igual. “Essa é uma grande lenda urbana. O comprimento e o tipo de casaco mudam a cada uma dessas temperaturas”, explica Érika Lessa. “O frio de -10° é mais tolerável que o de -30°, compara Tatiana de Oliveira.

“Sair sem luva e cachecol é um perigo. Parece mil agulhas te picando”%2C diz Alexandra de Vries

Foto: Foto de Leitor/Alexandra de Vries

Uma unanimidade: ter armário grande. “É bota de neve, bota de quando só está frio, bota de outono (se usar as de inverno no outono, morre de calor), casacos longos abaixo do quadril, no quadril, jaqueta, moletom”, enumera Érika.

Entre as desvantagens, ter de andar ‘como uma cebola’. “Se for para academia, tem que ir todo agasalhado, com a roupa e o calçado na bolsa”, diz Érika.

“A conta de luz fica salgada também”, por causa do aquecimento, lembra. Tatiana cita a ameaça do ‘flash freeze’, fenômeno causado por ventos polares. “Não se pode ficar fora de casa por mais de sete minutos, ou a pele exposta congela, como as bochechas.”

Mas há vantagens. “Você não sua tanto nem sente aquela moleza do calor”, afirma Alexandra. “E não tem nenhum inseto para encher o saco”, destaca Tatiana. “O frio reúne as pessoas. O canadense tira um pouco de sua identidade do inverno, é o que torna o povo resistente”, resume Alexandra.

“O vento no rosto dói. Você quer rir e fica a sensação de picolé nos dentes”%2C conta Erika Lessa

Foto: Foto de Leitor/Erika Lessa

Trump ainda faz piada com o frio…

Em plena onda de frio, o presidente Donald Trump ironizou o aquecimento global. “No leste, pode ser a véspera de Ano Novo mais fria já registrada. Talvez possamos usar um pouco do bom e velho aquecimento global pelo qual nosso país, e não outros países, iria pagar trilhões de dólares para proteger-se. Agasalhem-se!”, tuitou.

O magnata sempre foi cético sobre as mudanças climáticas, chegando a afirmar que se tratava de “invenção” da China. Trump retirou os EUA do Acordo climático de Paris e escolheu defensores dos combustíveis fósseis para ocupar postos ambientais importantes.

“A mudança climática é muito real, mesmo quando faz frio do lado de fora da Trump Tower neste momento”, ironizou no Twitter o diretor da Academia de Ciências da Califórnia, Jon Foley.

“Meteorologia não é a mesma coisa que clima. Até o presidente pode entender”, declarou a deputada Pramila Jayapal.

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