Luís Pimentel: Três histórias de Carnaval

27 de fevereiro de 2017

O Dia

– Colunista contra algumas passagens do período da folia –

1. Foi num Carnaval que passou. O folião chegou no bar Bip-Bip, em Copacabana, e puxou uma cadeira. Arrasado, depois de “três dias de folia e brincadeira” e de se esbaldar no desfile do rancho Flor do Sereno, despejou os cotovelos sobre a mesa e grunhiu:

— Uma cerveja, estupidamente gelada.

Alfredo, dono do negócio, conhecido e aplaudido pelo mau humor, grunhiu mais alto:

— Só tem quente.

— Serve — gemeu o folião, caindo imediatamente num pranto de derrubar encostas.

Tão sincero que até o Alfredo se comoveu:

— Que foi, querido?

Acarinhado, o sujeito abriu o verbo:

— Você sabe o que é ter um amor, meu senhor, ter loucura por uma mulher, e depois encontrar esse amor, meu senhor, nos braços dum motorista de ônibus?</CW>
Corno em fim de festa é comum, mas, plagiando Lupicínio Rodrigues, não é a toda hora que se encontra.

Alfredo tentou ajudar:

— Qual é a linha?

— Nenhuma. Piranha da pior espécie.

— Estou falando do Ricardão. Qual é a linha que ele pilota?

— 571, Glória-Leblon, via Jóquei.

O comerciante enxugou uma lágrima discreta:

— É duro mesmo. Sei o que você está passando.

Começando a se acostumar com o chifre, o amigo recente se animou:

— Você também já levou bola nas costas?

E o Alfredo, olhar distante, pôs mais uma dose de maldade no alfinete de pontinha fina:

— Só levei bola nas costas nos meus tempos de médio-volante do Bangu. Agora, se pelo menos a vadia tivesse escolhido um motorista do 572, que é via Copacabana…

2. Paixão na Avenida. Saio do Sambódromo na madrugada de terça-feira, depois de ver o desfile da última escola de samba da segunda, e me dirijo à estação do metrô na Praça 11. Na fila dos bilhetes, o folião me aborda, lata de cerveja na mão e cigarrinho apagado no canto da boca:

— Tu conheces a Doralice?

— Só a do samba: “Doralice, eu bem que te disse, que amar é tolice, é bobagem, é ilusão”.

— Falo sério, meu chapa. Doralice parece mulata do Lan, tu manja? Sorriso lindo, todos os dentes na boca, peitinhos de amora, coxas de italiana, balaio grande…

Estava musicalmente inspirado, atropelei novamente:

“Mexia um balaio grande, muito mais macio que o boto cor-de-rosa do Custeau”.

— E como é que tu sabes?

— Isso é de outro samba. Fala mais de Doralice.

— Conheci domingo, no desfile da Mangueira.

— Como diria o grande Wilson das Neves, “ô, sorte!”.

— E perdi ontem, no embalo da Mocidade.

Adoro essas histórias, desde menino. Vivia pedindo para minha mãe recontar o drama de um corno amigo, que se ajoelhou diante da infiel, aos prantos: “Volta, amor. E traz quem tu quiser contigo”. Quis saber como é que foi:

— Como ganhei ou como perdi?

— As duas. O importante é competir.

O folião não regateou:

— Ganhei de um sambista desatento, que marcou bobeira. E perdi para uma loura de cinema, que encostou no meu patrimônio, como quem não quer nada, e prometeu vaga de rainha de bateria pro ano que vem.

— E Doralice?

— Foi. A essa altura, já deve estar ensaiando com a louraça.

3. Outros carnavais. O Carnaval carioca de 2017 promete! Vejo numa coluna de jornal que as moças da Vila Mimosa organizaram um bloco de nome impublicável, formado só pelas profissionais do sexo, para arrebatar corações, mentes e outros órgãos nas ruas da cidade. Acho que tem tudo para ser um puta bloco, um tesão na avenida.

Noutros tempos — hoje já não sei como é que a banda toca —, a Cadeia Pública Municipal de Feira de Santana exibia a maior concentração de presos barra-pesada do país. Cidade-entroncamento, passagem obrigatória da capital do estado para todo o interior baiano e vice-versa, ali sempre foi território sedutor para a bandidagem.

Num fevereiro de outros tempos, o então prefeito resolveu conceder um indulto momesco, liberando um time de assaltantes, traficantes, matadores, arruaceiros e ladrões de todos os tipos para brincar o Carnaval livremente — claro que com o compromisso de retornar às suas celas na Quarta-Feira de Cinzas.

Depois de ganhar as ruas na sexta-feira, consta que a turba foi imediatamente para a zona do baixo meretrício, onde juntou-se ao mulherio na formação de um bloco carnavalesco que fez história. Divertiram-se e ensaiaram duro duas noites e um dia, e no domingo se espalharam pela cidade, batucando em latas de banha e de leite em pó, com um samba-enredo que, cantado em dois tempos, ficou na memória dos grandes registros musicais que a folia proporciona.

Era assim: primeira parte, só os bandidos:

“Ô, neguinha, neguinha,
o que é que eu sou?”
Segunda parte, só as piranhas:
“Ladrão, maconheiro, estuprador!
Mas é bonitim, é meu amor…”
(repete até cansar)

Quem me contou a história fechou assim a narrativa:

— Como você pode observar, a letra era curta, mas tinha um grande impacto.
Já foi dito que a alma humana é um tremendo mistério.

No Carnaval, radicaliza.

Luís Pimentel é escritor

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