Imóveis: Imóveis: o perigo da 'automedicação'

10 de dezembro de 2017

Cristiane Campos

– Obras realizadas sem a indicação de profissionais habilitados colocam em risco edificações e usuários –

Rio – Quando a pessoa vai ao médico, ela recebe o diagnóstico e uma receita com os remédios adequados ao caso. O mesmo deveria acontecer com as edificações. Ao sinal de problemas, o responsável por elas deveria solicitar o parecer de um profissional habilitado com o ‘diagnóstico’ e as possíveis soluções. No entanto, a prática não é muito comum e o resultado da ‘automedicação’ pode trazer sérias consequências para as construções e, principalmente, para os usuários dela.

A norma NBR 16280 tem requisitos para gestão em condomínios

A norma NBR 16280 tem requisitos para gestão em condomínios

Foto: Divulgação

“Basta que se troque a palavra farmácia por loja de materiais de construção e substitua receita médica por projeto e especificação e se estará face a face com inúmeras tentativas empíricas de se solucionar manifestações indesejáveis nos mais diversos tipos de construções”, relata o engenheiro civil Flávio Figueiredo, diretor da Figueiredo & Associados Consultoria e conselheiro do Ibape/SP (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia de São Paulo).

Flávio Figueiredo comenta que são observadas ‘automedicações’ em imóveis de todos os tamanhos, tipos e padrões. Entre as mais comuns, a troca de disjuntores por outros com maior amperagem, quando os originais desarmam com frequência em razão de excesso de carga; esconder trinca ou bolor com papel de parede; aplicar argamassa em peças de concreto armado, sem critério técnico definido, para encobrir armaduras oxidadas; ocultar marquises ou outras estruturas em concreto armado deteriorado atrás de belas fachadas decorativas, em vidro ou alumínio; e emendar tubulações com fitas adesivas ou massa plástica.

“A melhor maneira de comunicar obras é por meio de projetos%2C na forma de plantas%2C desenhos%2C memoriais e especificações”%2C explica Fernando Santos%2C arquiteto

Foto: Divulgação

Intervenções

Fernando Santos, arquiteto e diretor da Santos Projetos, lembra que as intervenções sem projetos ou especificações realizadas por profissionais habilitados são executadas tanto por moradores quanto pelo próprio condomínio. “Existem estruturas e infraestruturas do condomínio dentro das unidades tanto quanto existem da unidade em áreas do condomínio. Não há intervenção no primeiro que não tenha impactos no segundo e vice-versa. O condomínio que decide substituir toda coluna de esgoto vai impactar nos banheiros de boa parcela dos moradores. Assim como um morador que instalar um aparelho de ar-condicionado vai impactar na fachada do prédio, que é do condomínio”, destaca.

Fernando Santos ainda acrescenta que é imprescindível que as partes sempre se comuniquem antes de iniciar qualquer obra. “E a melhor maneira de comunicar obras é por meio de projetos, na forma de plantas, desenhos, memoriais e especificações, com emissão de responsabilidade técnica, que somente arquitetos e engenheiros com habilitação podem fazer”, ressalta.

“Para resolver pequenos problemas%2C as pessoas acreditam que não precisam de especialistas. São razões culturais”%2C conta Flávio Figueiredo%2C engenheiro civil

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Norma brasileira

Fernado Santos também lembra que, em 2014, foi publicada a norma NBR 16280, que coloca os requisitos básicos para uma gestão eficiente de obras e serviços em condomínios. Segundo ele, a norma deveria servir de orientação geral para todos os síndicos, mas existem alguns administradores condominiais que a desconhecem.

“Sem profissionais habilitados à frente dos serviços e obras civis, toda a responsabilidade em caso de problemas ou acidentes recai sobre o responsável legal do imóvel. Nas obras do condomínio, a responsabilidade recai sobre o síndico. Nas unidades privativas, a responsabilidade é do morador, mas pode acabar resvalando no síndico, pois o condomínio tem poder fiscalizador sobre as obras internas. Se houver situações de risco, o condomínio deve intervir para embargar a obra e solicitar adequação dos métodos de trabalho, mesmo dentro das unidades autônomas”, explica Fernando Santos.

Maquiar o problema

Flávio Figueiredo complementa que a ‘automedicação’ pode maquiar os problemas, mas não elimina as suas origens. “Muitas vezes, as patologias são até agravadas ou continuam a se desenvolver de forma oculta e, de um momento para o outro, se manifestam com intensidades tão relevantes a ponto de levar a construção à ruína”, afirma.

Outro ponto importante é que as manifestações patológicas não ocultadas funcionam como indicadores das reais condições de segurança, além de fornecerem pistas para o diagnóstico de sua origem. “Para resolver pequenos problemas, as pessoas acreditam que não precisam de orientação de especialistas. São razões culturais, da mesma forma que acontece com a automedicação. A pessoa está com uma dor na perna e logo vai à farmácia para comprar anti-inflamatórios, sem saber os riscos que corre com aquele remédio sem a indicação de um médico”, salienta Figueiredo.

As edificações também são vítimas do uso de vitaminas e anabolizantes não prescritos. “De um simples benjamim, para ampliar a quantidade de tomadas em um ambiente, à colocação de caixas d’água adicionais, ou até a criação de pavimentos extras sem quaisquer projetos e análises, as construções são submetidas a muitas intervenções que podem equivaler a doses letais de suplementos hormonais”, explica o engenheiro.

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