Ex- volante Bigu sofre com a morte do Capita, que o lançou no futebol

Marcia Vieira

– Ex-jogador foi campeão do Brasileiro pelo Flamengo em 1983 –

Rio – O coração do ex-jogador Bigu está partido. Desde a morte do amigo e mentor Carlos Alberto Torres, as noites têm sido longas e a tristeza, contínua. Volante do Flamengo em 1983, quando o time faturou o tricampeonato brasileiro, ele ficou marcado para sempre na memória do torcedor após uma brilhante atuação na vitória por 2 a 0 sobre o Guarani. Ao ser perguntado sobre a escalação para o jogo seguinte, o Capita não titubeou e cunhou uma frase que entraria para a antologia do futebol: “O Flamengo é Bigu e mais dez.”

“Estou muito triste, muito consternado. Mais triste ainda por não ter conseguido me despedir, não ter ido ao enterro. Ele foi muito importante na minha carreira, na minha vida. Com aquela célebre frase me lançou para o mundo”, disse Bigu, que mora em São Caetano do Sul (SP), desde que encerrou a carreira.

Trinta e três anos depois, o jogo que mudou sua vida voltou a ficar bem vivo na memória, assim como a admiração pelo homem que mudou seu destino. Na fase final do Brasileiro de 1983, o Flamengo precisava vencer o Guarani, mas jogava mal e o placar não saia do zero. No intervalo, Torres pensou em apostar no garoto para dar novo gás ao time.

“Aquele foi o meu dia. O Torres me chamou para conversar e perguntou se eu estava pronto para entrar. Respondi na lata, ‘a chuteira já está amarrada’. Ele ainda alertou: a torcida está vaiando”, relembra o ex-jogador, que emendou: “Estou acostumado com as vaias desde que tenho 13 anos.”

Torres, segundo Bigu, ficou impressionado com sua personalidade e o mandou a campo. Ele entrou aos 15 minutos do segundo tempo no lugar de Edson e comandou a vitória rubro-negra com atuação primorosa. “Houve invasão no vestiário. O repórter perguntou ao Torres a escalação do próximo jogo e ainda no calor do jogo, ele emendou a célebre frase”, disse.

Depois disso, a vida do jovem volante mudou da água para o vinho. Bigu, que morava no Morro do Borel, na Tijuca, neste dia não conseguiu nem chegar em casa, tamanho o assédio. Dois dias depois já estava morando na concentração do clube.

“Foi bacana, a repercussão foi grande. Na época, não consegui entender bem. Era jovem, intempestivo e achei que a pressão ia atrapalhar. Mas ele só queria me valorizar. Serei eternamente grato”, diz, emocionado, Bigu, que, após passar três anos na Gávea, atuou por Vitória e Torreense (Portugal), entre outros, até encerrar a carreira aos 37 anos, no São Caetano.

Bigu deixou recentemente as categorias de base da Portuguesa (SP), onde era treinador, e agora ruma para o futebol africano. Mas com o coração apertado: “O Torres era um irmão mais velho, um amigo. Não dizia o que a gente queria ouvir, mas o que precisava. Sempre falou na cara. Nunca vou esquecer dessa sinceridade. Era um barato”.


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