Escolas da rede pública do Rio incluirão ações sobre intolerância religiosa

9 de abril de 2018

O debate sobre intolerância religiosa vai fazer parte do dia a dia dos alunos das 1.249 escolas da rede pública estadual do Rio de Janeiro. As secretarias estaduais de Educação e de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos fecharam parceria para desenvolver ações nas escolas.

O ponto de partida é um vídeo produzido por meio do Programa Educação Mais Humana, por alunos do Colégio Estadual Pedro II, de Petrópolis, na região serrana, que fazem o Curso Técnico de Produção de Áudio e Vídeo. O trabalho será apresentado aos estudantes da rede para conscientizar sobre a importância do combate à intolerância religiosa.

Além desse trabalho, serão produzidos outros vídeos de 5 minutos para exibição nas escolas, no YouTube e nas redes sociais. A ideia é, após a divulgação, fazer um debate sobre o assunto. Para o secretário de Educação, Wagner Victer, o diferencial é a linguagem dos vídeos. “Colocamos em uma linguagem de jovens e eles são produzidos pelos próprios alunos. É um ato novo. Muita gente faz discurso, mas na prática não produz nada. Esse é um exemplo concreto.

Victer espera repetir nesse tipo de ação o sucesso que vem sendo obtido em um ano de discussões da Lei Maria da Penha nas escolas. “Esse é um tema transversal permanente, que é a questão do combate à intolerância religiosa. Futuramente, a gente vai trabalhar alguma coisa contra o preconceito racial. A violência contra as mulheres já está sendo trabalhada e completou um ano agora  com a discussão da Lei Maria da Penha nas escolas. Produzimos cinco vídeos e todas as escolas já estão usando”.

Os professores de diversas disciplinas e profissionais em educação do Rio vão ser capacitados por integrantes da Secretaria de Direitos Humanos e Políticas para Mulheres e Idosos, para que façam a abordagem do tema nas aulas de forma pedagógica. O secretário de Direitos Humanos, Átila Alexandre Nunes, disse que está previsto ainda um trabalho específico em uma unidade escolar, se ocorrer algum caso de intolerância religiosa.

“Ocorrendo um episódio de intolerância religiosa em determinada escola, nós vamos aplicar ali como se fosse uma vacina, ou seja, vai ser aplicada uma dinâmica envolvendo debates, apresentação cultural e vídeos, para que a gente possa aumentar a consciência desses adolescentes com relação à importância do tema. Aquele que é vítima da intolerância, muitas vezes pensa em abandonar a educação”, lembrou.

O projeto foi lançado no último dia 5, no auditório do prédio anexo do Palácio Guanabara, sede do governo fluminense. Representantes de várias religiões estavam presentes. O presidente do Conselho Estadual de Promoção da Liberdade Religiosa do Rio de Janeiro (Coneplir/RJ), o babalorixá Márcio de Jagun, informou que pesquisas mostraram que o ambiente escolar é o mais hostil em termos de intolerância religiosa, seja por parte de pais, educadores e alunos.

“A intolerância religiosa não é um caso isolado. Não é um problema pontual da sociedade. Ela causa evasão escolar, causa traumas que se estendem por toda a vida de um aluno, causa problemas sociais, conturbações de várias ordens, inclusive agressões físicas e até mortes, como já foram constatadas. Dentro do leque dos direitos humanos existe um tema que ainda não ganhou visibilidade diante da importância que tem, que é justamente o da liberdade religiosa”, afirmou.

A coordenadora do Observatório Cultural das Aldeias, Cristiane Santos, espera que o projeto possibilite aos alunos receber também mais informações sobre cultura indígena, que apesar de estar prevista na legislação junto com a divulgação da cultura africana, não ocorre.

Og Sperle, da direção nacional da União Wicca do Brasil e sumo sacerdote da religião que professa o paganismo, contou que também enfrenta barreiras e falta de entendimento da sociedade. Na visão dele, a melhor forma de acabar com o preconceito é por meio da informação. “A grande preocupação da intolerância é aquela que vem meio velada, por meio do bullying”, disse, acrescentando que praticantes da sua religião são frequentemente apontados como bruxos.

“Existe um trabalho interno da comunidade pagã. Nessas coisas pequenas podem não nos ofender diretamente, porque estamos cientes da nossa fé, mas podem ofender a um irmão nosso que não esteja tão preparado psicologicamente. Então, temos que combater o pequeno bullying e a outra forma é fomentar o conhecimento da fé”. Ele disse que a religião tem atraído muitos jovens e que há falta de compreensão das famílias, que pensam que eles estão envolvidos com bruxaria.

Segundo a professora Anita Ferreira Marinho, da Superintendência de Gestão de Ensino da Secretaria de Educação e uma das idealizadoras do projeto, o melhor do trabalho é saber que vai ser incentivada a cidadania dos alunos. “Vai ser o desenvolvimento do cidadão, raciocínio cidadão, respeito ao próximo. A gente sabe que a tarefa não é fácil, é árdua, mas vislumbra muito possível, porque é um campo que está ali, fértil, e é só plantar. A gente precisa ter ações como essa para colher no futuro bons posicionamentos, olhares respeitosos”.

De acordo com Anita, a intenção foi criar um projeto sustentável que possa permanecer, a partir de agora, na grade curricular das escolas. “O projeto é feito para ações simples, para que a gente consiga tê-lo de forma permanente dentro da nossa rede, para que isso seja uma prática de professores. Esse vai ser um assunto aberto em sala de aula, que a gente sabe, muitas vezes polêmico, mas possível”, completou.

O secretário de Direitos Humanos informou que nos últimos anos os casos de intolerância religiosa no Rio se agravaram com o uso da violência. Segundo Nunes, foi desenvolvido um trabalho em conjunto com a Secretaria de Segurança, entidades do terceiro setor e integrantes de diversas matrizes religiosas. “Esse trabalho deu resultado até na área de educação – porque casos isolados ocorrem em escolas, tanto particulares quanto públicas; este ano, não recebemos nenhum tipo de denúncia como no ano passado. Entendo que, principalmente a imprensa, desenvolveu um papel fundamental que foi expor os casos de intolerância religiosa e passou o recado de que a sociedade não aceitará isso no estado”.

Márcio de Jagun disse que dados da Secretaria de Direitos Humanos mostram quase 900 casos registrados entre 2017 e 2018. Esse nível alto de notificações pode ser explicado, de acordo com ele, pelo maior esclarecimento sobre a intolerância religiosa. “As pessoas estão se acostumando a denunciar, estão entendendo que isso é crime, coisa que não acontecia. Nós vivemos 500 anos de intolerância religiosa sem que o cidadão se desse conta de que isso constitui crime, agressão à dignidade humana. Agora, isso está sendo conscientizado; então, há certa tendência, por esse motivo, que os registros aumentem”, observou.

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