Ederlon Rezende: Por que a UTI não pode abrigar a todos

10 de junho de 2017

O Dia

– A criação de leitos precisa de planejamento, investimento e treinamento de equipes para oferecer qualidade e segurança –

Rio – No fim de outubro, o Conselho Federal de Medicina estabeleceu critérios de admissão e alta em leitos de terapia intensiva, criando norte para a discussão sobre possível carência na Terapia Intensiva no país.

Há vários fatores que provocam esta impressão, entre eles a falta de critérios para internação, que costuma superar a disponibilidade de leitos. A resolução define prioridades por critérios clínicos, científicos e éticos.

A UTI é o setor onde se realizam tratamentos complexos, com pessoal, materiais e equipamentos que oferecem assistência à vida em situações críticas, tentando reverter situações graves e oferecer recuperação da saúde para pessoas que estão em situação instável e com risco de vida, necessitando de suporte de respiração por aparelhos, hemodiálise ou circulação do sangue.

Demora maior que quatro horas para a entrada na UTI pode aumentar o tempo de internação e até o risco de mortalidade. Outros pacientes sem nenhuma falência de órgãos, mas com alto risco de piora, que necessitam de vigilância contínua, também são indicados para a UTI.

A criação de leitos precisa de planejamento, investimento e treinamento de equipes para oferecer qualidade e segurança. O número UTIs recomendado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) é de um a três para cada 10 mil habitantes.

Em maio de 2016, o CFM contou 40.960 leitos de UTI (1,86/10.000 habitantes). Desses, 20.173 atendem 150 milhões de pessoas que dependem unicamente do SUS. Em 19 estados, os leitos de UTI por habitante na rede pública são inferiores ao proposto pelo Ministério da Saúde.

Além disso, a falta de critérios para admissão na UTI provoca ocupação de leitos por pacientes com baixa possibilidade de melhora ou até moribundos. Muitos desses pacientes recebem intervenções que prolongam a evolução da morte natural, causando sofrimento inútil.

Outros pacientes estáveis que precisam apenas de monitoração poderiam se beneficiar de cuidados semi-intensivos. Estas unidades menos complexas e caras podem contribuir para facilitar a alta.

A ocupação dos leitos deve ser feita com racionalidade. É um desafio complexo. Os critérios que agora estão definidos são passo importante na busca de soluções.

Ederlon Rezende é ex-presidente da Amib e líder técnico da Delphos

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