Dono do Giraffas fala de desligamento do filho por polêmica da Covid-19

Com 400 unidades e 8.000 colaboradores no Brasil, a rede de lanchonetes Giraffas se viu em meio a uma crise. Alexandre Guerra, membro do conselho e ex-CEO da empresa, postou um vídeo na internet contrariando a ordem da autoridades médicas que pedem a quarentena horizontal. “Você que é funcionário, que talvez esteja em casa numa boa, numa tranquilidade, curtindo um pouco esse home office, esse descanso forçado, você já se deu conta de que, ao invés de estar com medo de pegar esse vírus, você deveria também estar com medo de perder o emprego? Será que sua empresa tem condições de segurar o seu salário por 60, 90 dias? Você já pensou nisso?”, disse ele em sua conta do Instagram.

O efeito foi imediato. O Giraffas passou a ser atacado nas redes sociais. Carlos Guerra, pai de Alexandre, decidiu afastar imediatamente o filho da empresa e vai comprar a parte dele na rede, que é de 1%, assim que a poeira baixar. Na entrevista a seguira concedida a VEJA, Carlos Guerra fala a pela primeira vez sobre o crise:

Por que o senhor decidiu afastar seu filho do conselho do Giraffas? O Alexandre tem um negócio chamado Nação Empreendedora, que funciona como um aplicativo voltado para pequenos empresários. Ele sempre se manifestou sobre pontos que considera relevantes. Mas o caso de agora chegou em uma época de sensibilidade enorme, as pessoas estão à flor da pele. Ocorreu uma repercussão indesejada. Embora ele não seja mais CEO, cargo que ocupou entre 2013 e 2016, e integre apenas membro do conselho, a conexão com o Giraffas foi inevitável.

A vida na quarentena, o impacto da economia, o trabalho dos heróis da medicina: saiba tudo sobre a ameaça no Brasil e no mundoVeja/VEJA

Como o senhor soube do vídeo? Por terceiros. Houve quem elogiou e quem se preocupou com o que ele disse. Publicamos uma nota dizendo que não apoiamos esse governo e nem partido algum. O Alexandre já disputou eleições para governador do Distrito Federal em 2018, pelo Novo, quando cometemos um erro: era para ter feito o afastamento dele para não ter conexão alguma com política. Agora, foi o Alexandre quem pediu para sair, mas reconhecemos que era o melhor a ser feito para ele e para a empresa.

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A vida humana pode ser minimizada diante de uma recessão econômica? Lógico que não, nenhum problema econômico pode estar à frente da vida. A economia já foi para o buraco, ficar mais uma ou duas semanas parado não vai fazer diferença. Hoje, o objetivo é salvar o máximo de vidas possíveis. Cada coisa terá de ser resolvido em seu momento, em seu tempo. Não adianta mandar as pessoas para a rua: todos estamos com medo. É preciso ter uma declaração da OMS dizendo que agora está seguro sair de casa e que o sistema de saúde tem capacidade de suportar a demanda.

Alexandre Guerra, filho mais velho de Carlos e dono de 1% da rede de restaurantes: “curtindo o home office”Reprodução/VEJA

Como avalia CEOs e donos de empresas como Madero e Havan que minimizam o impacto das mortes causadas pela Covid-19? Não quero fazer juízo de valor em cima do que eles falaram, porque sequer vi. Mas quem minimiza o número de vidas em função da retomada… Existem entidades e pessoas capacitadas para falar da quarentena horizontal: a OMS, os médicos, o ministro da Saúde. Quem não dá a atenção às autoridades está querendo queimar etapa de forma irresponsável.

Qual medida foi adotada na rede Giraffas? Quando vimos que teria um fechamento significativo, colocamos 80% dos funcionários e colaboradores em férias coletivas remuneradas por 30 dias. O restantes, 20%, está trabalhando de esquema home office. Passamos aos franqueados a orientação de fazer o mesmo: não demitir ninguém. A empresa tem hoje 400 restaurantes, sendo metade pertencente aos franqueados. Ao todo, são 8.000 colaboradores. A franqueadora não vai demitir ninguém por 90 dias. Esperamos que o governo faça a sua parte e ajude os pequenos restaurantes. Veja uma coisa: o maior bem de um restaurante é a mão de obra. Leva muito tempo para treinar e capacitar. Mandar embora é ruim para o negócio.

Qual papel seu filho exercia na empresa? Ele foi CEO do Giraffas entre 2013 e 2016. Desde então, faz parte do conselho, que se reúne a cada 15 dias. O meu filho tinha 1% de participação na empresa. Combinamos que ele vai me vender, mas ainda não acertamos valores. Ele terá mais liberdade par exercer as funções que gosta sem causar aborrecimentos.

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Como foi demitir o próprio filho da empresa? Foi ele quem pediu. De certa forma, sei lidar com as coisas separadas. Uma coisa é família, outra o negócio. Mas é claro que como é difícil, mas essa saída precisava ser feita de forma pública.

Como o senhor avalia a economia do Brasil pré-coronavírus? Desde o final do ano passado, já havia uma certa decepção com o resultado da economia. O otimismo tomou lugar de apreensão no início do ano com a divulgação do PIB pequeno. O Giraffas teve um ótimo 2019 e manteve-se acima da meta até fevereiro desde ano. Agora, estamos diante de incertezas pelas quais eu, o Brasil e o mundo nunca passaram. O governo tem de fazer uma intervenção para minimizar. Não adianta agora a cartilha liberal da escola de Chicago de Paulo Guedes.


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