Dilma Rousseff: Trajetória da tortura militar ao impeachment por 'pretextos'

31 de agosto de 2016

Clarissa Sardenberg

– Presidente afastada em definitivo já havia anunciado que o Brasil estava ‘a um passo da concretização de um golpe de Estado’ –

Rio – Dilma Vana Rousseff foi afastada definitivamente do cargo de Presidente da República, aos 68 anos, nesta quarta-feira. Por 61 votos a 20, o Senado decidiu pelo impeachment da primeira mulher que ocupou o cargo no Brasil. Senadores a favor de Dilma lutaram até o último momento afirmando que os crimes que se imputaram foram pretextos por quem não venceu as eleições para destituí-la do poder como golpe parlamentar, assim como a maior parte da mídia internacional afirmou. “Viola-se a democracia e pune-se uma inocente. Estamos a um passo da concretização de um golpe de Estado”, já anunciava ela na última segunda-feira.

Em dezembro de 2015, ao entregar unidades do projeto habitacional “Minha Casa, Minha Vida”, em Camaçari, na Bahia, ela já havia dito: “Tenho coragem para enfrentar todos aqueles que acham que o melhor jeito para chegar à Presidência da República é atropelar a democracia”. E foi assim que o fez, na última segunda-feira, ao longo de 14 horas ao se defender e responder 48 senadores, que em sua maioria como ela mesma lembrou em outra ocasião, “não resistem a uma pesquisa no Google”.

Em sua defesa, a agora ex-presidente negou ter cometido qualquer crime. “É por ter minha consciência absolutamente tranquila que venho e digo com a serenidade dos que nada têm a esconder que não cometi os crimes dos quais sou acusada injustamente”, afirmou a presidente na última segunda. Segundo a advogada Janaína Paschoal, Dilma foi acusada com base: omissão diante do “escândalo do petrolão”, pedaladas fiscais e decretos editados em desconformidade com a meta vigente.

Dilma Rousseff nasceu em 14 de dezembro de 1947, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Filha de um imigrante búlgaro, Pedro Rousseff, e de uma professora, Dilma Jane da Silva,ela deu início à vida política aos 16 anos, em combate ao regime militar. Ela passou a sofrer perseguição política em 1969, mesmo ano que conheceu o advogado gaúcho Carlos Franklin Paixão de Araújo, também perseguido pela Justiça Militar. As marcas da ditadura, que a condenou por “subversão”, de 1970 a 1972, foram lembradas pela presidente em um discurso emocionado.

“Por duas vezes vi de perto a face da morte: quando fui torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida; e quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência. Hoje eu só temo a morte da democracia”, disse no Senado. Dilma foi torturada no Dops-SP, presídio Tiradentes, em São Paulo com choques elétricos, pau de arara, palmatória e teria perdido um dente.

Depois de ser ver livre da prisão, em 1973, Dilma foi para Porto Alegre retomar seus estudos em Economia, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Três anos depois, com 29 anos, deu à luz a filha do casal Paula Rousseff Araújo. Na luta contra a injustiça militar, ela passou a se dedicar em 1979 à campanha pela Anistia. Junto com o marido, ajudou a fundar o Partido Democrático Trabalhista (PDT) no Rio Grande do Sul e trabalhou em sua assessoria de 1980 até 1985. Em 1994, se separou após 25 anos de casamento.

Início da vida pública

A primeira vez que Dilma ocupou um cargo público foi em 1986, ao ser escolhida pelo prefeito de Porto Alegre, Alceu Collares, para ocupar o posto de Secretária da Fazenda.

O ano de 1989 marca a volta da Democracia ao Brasil e do primeiro apoio formal de Dilma ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Na época diretora-geral da Câmara Municipal de Porto Alegre, ela esteve ao lado de Leonel Brizola na campanha ao Palácio do Planalto e depois de Lula, no segundo turno.

Em 1993, Dilma foi escolhida para chefiar a Secretaria de Energia, Minas e Comunicação do Rio Grande do Sul. Já em 1998, uma aliança entre PDT e PT elegeu o governador Olívio Dutra e o posto da secretaria voltou a ser dela.

É em 2000 que Dilma filia-se ao PT, sendo chamada por Lula para liderar o Ministério de Minas e Energia em 2003 após o ex-presidente se impressionar com o fato de o estado do Rio Grande do Sul ter sido o único a não sofrer racionamento de energia em 2001.

Dilma foi responsável pela reformulação do setor de Minas e Energia, entre 2003 e 2005, com a criação de marco regulatório. Ela também presidiu o Conselho de Administração da Petrobrás, fato levantado por seus acusadores em relação ao “petrolão”. Na época, ela introduziu o biodiesel entre as matrizes energéticas do país e criou o programa Luz para Todos.

Sua entrada na chefia da Casa Civil se deu em 2005 em um turbulento período para o governo Lula: Dilma foi escolhida para substituir José Dirceu como chefe da Casa Civil após o escândalo do Mensalão. Ela ficou conhecida como a “mãe do PAC” (Programa de Aceleração do Crescimento) e acompanhou o Minha Casa, Minha Vida, entre outros.

Câncer

Tida como uma fortaleza pela opinião pública, em 2009, Dilma foi às câmeras para contar ao público que sofria de um câncer linfático. Ela passou por sessões de quimioterapia e se recuperou com braveza. Foi no mesmo ano que ela ganhou da revista “Época” a posição de uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil.

Após superar o câncer, contrariando expectativas, foi indicada para Presidência da República, em março de 2010, pelo PT. A partir da indicação para substituir Lula, aprovado por 85% da população, uma renovação na imagem de Dilma foi feita, deixando de lado o aspecto “mais sisudo” para dar lugar a um visual mais moderno, que contou até com um dos maiores nomes do setor de beleza do país, Celso Kamura.

Mandatos

Dilma foi eleita primeira mulher Presidente do Brasilaos 63 anos, em outubro de 2010, com cerca de 56 milhões de votos após derrotar José Serra (PSDB). Seguindo os passos de Lula, ela passou a se comunicar de forma mais leve para que seu discurso atingisse diferentes pessoas. Ela assumiu no dia 1° de janeiro de 2011. “Gostaria que pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas e dissessem: Sim, a mulher pode”, afirmou na ocasião.

Em 2014, o brasileiro foi às urnas para definir o resultado de uma das eleições com margem mais apertada de votos. Dilma derrotou o então candidato senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno após debates marcados por diversas acusações. Em sua defesa da presidente no Congresso Nacional, nesta terça-feira, o próprio advogado José Eduardo Cardozo afirmou que os dois lados se excederam em suas considerações a respeito um do outro.

Em sua campanha, ela afirmou que daria continuidade a programas sociais do Partido dos Trabalhadores, mas algumas políticas de austeridade apontaram em outra direção e desagradaram parte da população. Em março deste ano, um dos maiores protestos nas ruas contra o governo da presidente ocorreu, reunindo 3,5 milhões de pessoas em 300 cidades brasileiras, de acordo com a Polícia Militar.

No mesmo mês, o PMDB deixa a base do governo e o então vice-presidente Michel Temer dá continuidade a uma série de pronunciamentos como se nada tivesse em comum com o governo Dilma. Um dia depois da abertura do processo de impeachment contra ela, Dilma afirmou que Temer conspirou contra seu governo.

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