Dilma e o motor do crescimento

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– Já estava mais do que na hora de a presidenta Dilma Rousseff explicar sua resposta frente à situação do país. E ela o fez, de maneira clara e objetiva, na entrevista ao Jô Soares –

Um artigo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) indica que, em todas as principais economias, o investimento privado não residencial caiu entre 10% e 25%, e jamais se recuperou. Resultados semelhantes são apresentados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em distintos artigos. Os autores repetem uma velha máxima da teoria macroeconômica: mesmo juros baixíssimos não garantem que volte a funcionar o “motor privado do crescimento” em um ambiente de alta incerteza.

No caso do texto do BIS (bis.org/publ/qtrpdf/r_qt1503g.htm), a incerteza se associa à volatilidade do crescimento do PIB. No do FMI (ver “World Economic Outlook”, capitulo 4), adiciona-se a esta a “incerteza de política econômica” – ou o vaivém dos rumos das soluções de políticas abraçadas por distintos governos nos últimos anos. De fato, tanto o BIS quanto o FMI, além de grande parte do mercado financeiro, têm regularmente mudado suas previsões de crescimento de médio prazo. E se profissionais que vivem desses prognósticos de curto prazo conseguem acertar, imaginem os que investem para produzir bens e serviços alguns (ou muitos) anos à frente.

Tudo indica que entramos numa “era das incertezas”, para parafrasear o título do livro do grande economista John Kenneth Galbraith. Trata-se, desta feita, de um circulo vicioso, em que a incerteza reduz o investimento, que gera crescimento baixo e volátil; este, por outro lado, desanima ainda mais o investidor produtivo. Para romper com esse ciclo, a solução até agora por parte do clube das 20 maiores economias (G-20) foi pisar no acelerador da liquidez, objetivando reaquecer o crédito e, portanto, reanimar a demanda. Outros, como a China, colocaram grande parte das fichas em ampliar o investimento de suas empresas públicas, a nível nacional e provincial. A esperança, nos dois casos, era que essas políticas gerassem uma demanda agregada mais estável, que pudesse guiar investidores produtivos privados em suas decisões de longo prazo.

Deu parcialmente certo: em algumas economias (especialmente nos EUA), a reboque da valorização dos ativos financeiros e imobiliários, parte dos consumidores passaram a endividar-se mais e a comprar mais bens e serviços. O efeito sobre o emprego demorou, mas finalmente veio, na forma de mais postos ofertados pelo setor privado — apesar da estagnação do rendimento assalariado médio. Enquanto isto, o mundo todo viu estarrecido o investimento chinês tornar-se responsável por mais de 50% do PIB daquele país — e de parte significativa do crescimento global. Dois problemas foram, entretanto, se acumulando. Por um lado, enquanto as condições para investir produtivamente passaram a melhorar em economias avançadas do G-20, eles passaram a minguar nas economias emergentes do grupo — inclusive, e especialmente no Brasil. Por outro, nas economias mais avançadas o nível de endividamento público e privado gera crescentes dúvidas sobre a sustentabilidade do crescimento. Não por outra razão, a revista inglesa “The Economist” desta semana anuncia a possibilidade de uma nova crise global proximamente, que poderia ser mais grave pela falta de espaço fiscal das principais economias do G-20 em responder a essa possibilidade.

Cansados da apatia do investimento, até mesmo os economistas do FMI se tornaram mais pragmáticos sobre como reativar o “motor do crescimento”. Por exemplo, em outro recente interessante artigo, no site da instituição (“Capital Idea” de junho de 2015), sugere-se que, “apesar de a infraestrutura pública alemã não poder ser considerada deficiente”, um aumento do investimento público em “estradas e pontes não estimularia a demanda doméstica, mas também aumentaria a demanda produtiva e aumentaria a produção no longo prazo e geraria externalidades (spillovers) em toda a área do euro”. Abandona-se assim o discurso da urgência e efetividade das reformas estruturais, e do uso “eficiente” e parcimonioso dos recursos públicos, e adota-se uma velha receita anticíclica, até recentemente considerada indesejável e inócua.

Foi pensando nesses artigos que acompanhei a entrevista da presidenta Dilma Rousseff no programa do Jô Soares. Independentemente da opinião sobre os rumos atuais da política, é difícil negar que foi positiva a entrevista: afinal, já estava mais do que na hora de a líder do governo federal explicar sua resposta frente à situação do país; e ela o fez de maneira clara e objetiva. As respostas, por sua vez, revelaram importantes pontos — dos quais ressalto quatro.

O primeiro é, de fato, que a presidenta tem, sim, estratégia bem definida, que está sob sua total, e intransferível, responsabilidade como chefe do executivo — algo que tem lhe sido negado sistematicamente por grande parte da mídia ao longo desses últimos seis meses. E esta, por sua vez, continua a ancorar-se num compromisso de mais longo prazo com um desenvolvimento voltado a reduzir a pobreza e a desigualdade no país. O segundo ponto é que a guinada na sua política macroeconômica explicaria uma convicção da presidenta de que, dado o prolongamento da crise global, tornou-se fiscalmente insustentável manter os instrumentos contracíclicos convencionais, e não convencionais, utilizados no seu primeiro mandato. Ela reafirmou portanto sua crença na urgência de reequilibrar as contas do governo, mas também simultaneamente criar instrumentos públicos inovadores para reavivar o investimento privado. Em terceiro lugar, a presidenta coloca parte importante da suas fichas na capacidade de reativar o investimento privado doméstico como motor do crescimento de longo prazo, sem relegar a possibilidade de melhoras no desempenho exportador. Por fim, a presidenta indica crer que o novo pacote de concessões servirá como sinalizador para o setor privado mudar seu ânimo e expectativas.

A presidenta pareceu, portanto, indicar que aposta num novo tipo de parceira entre Estado e setor privado como chave para a retomada sustentável do investimento, do crescimento, da produção, e do emprego. A aposta envolve diversas incógnitas sobre a dinâmica da economia global, sobre os efeitos de médio prazo do ajuste em curso, sobre os novos instrumentos a serem criados, sobre os avanços institucionais e microeconômicos requeridos, e, especialmente, sobre a resposta do setor privado brasileiro a tudo isto. É uma aposta que pode ser questionada, mas que, no mínimo, deve ser respeitada.

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