Depois de críticas, loja de móveis Ikea estende recall de cômoda à China

Cedendo a duas semanas de pressão pública crescente na China, a fabricante sueca de móveis Ikea anunciou nesta terça-feira (12) que estenderia seurecente recall a um país no qual ela até agora desfrutava de forte reputação.

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A decisão marca o mais recente sinal do poder crescente dos consumidores chineses, cujos gastos engordaram o faturamento de companhias nacionais e estrangeiras igualmente, mas que passaram a demonstrar desejo mais forte de segurança e qualidade.

Duas semanas atrás, a Ikea anunciou o recall de 29 milhões de móveis nos Estados Unidos, onde as autoridades de segurança atribuíram a defeitos em cômodas e gaveteiros a responsabilidade pela morte de pelo menos seis crianças pequenas, em acidentes envolvendo quedas. A Ikea inicialmente excluiu a China e a Europa do recall, afirmando que seus produtos vendidos nessas regiões satisfaziam os regulamentos locais de segurança. Na terça-feira, depois de receber críticas online em veículos de mídia controlados pelo governo da China, a Ikea mudou de rumo, anunciando que recolheria 1,7 milhões de gaveteiros e cômodas na China.

“A Ikea é uma empresa muito responsável”, disse Xian Jiaxin, porta-voz da companhia, em entrevista. “A segurança do consumidor é muito importante para nós, e foi assim que chegamos a essa decisão”.
O recall não será estendido à União Europeia, ela acrescentou.

Divulgação
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Gigante de móveis sueca Ikea fará recall de cômodas após mortes de três crianças nos EUA

A Ikea —que em chinês porta o nome Yijia, ou casa adequada— desfrutava de reputação muito boa entre os consumidores chineses. Comparadas a outras unidades, as lojas da Ikea na China registram maior número de visitas de fregueses em busca de mobília, embora alguns visitem apenas para comer nos restaurantes das lojas e para olhar produtos. O faturamento da Ikea na China no ano fiscal encerrado em setembro atingiu US$ 1,55 bilhão, segundo a companhia.

Os produtos da empresa atraem os consumidores chineses dispostos a gastar um pouco mais para comprar produtos de qualidade. Os 30 anos de crescimento acelerado da China deram origem a um mercado de consumo imenso e cada vez mais seletivo. Com US$ 4,5 trilhões em vendas anuais no varejo, acredita-se em geral que a China esteja a caminho de superar os Estados Unidos como maior mercado mundial de varejo.

Numerosos escândalos quanto a segurança de alimentos na China, incluindo o leite em pó contaminado por melamine que causou a morte de seis crianças e doenças a dezenas de milhares de pessoas, diminuíram a confiança dos consumidores nas marcas nacionais. Como resultado, os líderes chineses impuseram regulamentação e inspeção mais rigorosas sobre os bens de consumo.

O escrutínio intensificado também atingiu as marcas estrangeiras. Todo dia 15 de março, a China celebra o Dia dos Direitos do Consumidor, durante o qual a rede nacional de TV do país exibe um programa anual no qual grandes empresas são acusadas por violações do interesse dos consumidores. Isso faz com que as companhias se provem especialmente sensíveis a percepções negativas dos consumidores chineses. As cadeias de fast food KFC e McDonald’s enfrentaram o ceticismo dos chineses quanto ao frescor de seus produtos, depois que um importante fornecedor de carne que atendia às duas foi fechado dois anos atrás devido a preocupações de segurança, e o KFC teve de correr no ano passado para combater os efeitos de um rumor que circulou online, acusando-o de criar galinhas de oito penas para fornecimento aos seus restaurantes na China.

“Se você observar em todo o mundo, perceberá que, essencialmente, o lugar em que mais existe crescimento no consumo é a China”, disse Jeff Waters, diretor executivo da divisão de consumo do Boston Consulting Group na China. “É claro que qualquer empresa vai tentar garantir respeito à regulamentação, para ter acesso a um mercado daquele tamanho”.

No caso da Ikea, a reação negativa na China foi quase imediata. Consumidores zangados recorreram à mídia social para se queixar das práticas de recall da empresa, bem como para criticar a regulamentação de segurança de seu país, considerada deficiente. A mídia chinesa lançou dúvidas sobre a qualidade e segurança de produtos da Ikea, e um editorial da agência oficial de notícias do país, Xinhua, denunciou a não convocação de um recall como “bullying gritante”.

O Conselho do Consumidor de Shenzhen, uma organização governamental na cidade de Shenzhen, no sul da China, divulgou comunicado criticando a decisão da empresa. Associações de defesa do consumidor comandadas pelo governo em Nanjing e Tianjin fizeram o mesmo.

No sábado, 11 dias depois que o recall nos Estados Unidos foi anunciado, a Ikea anunciou que começaria a discutir a possibilidade de um recall com a Associação Chinesa de Consumidores, uma organização fiscalizadora criada pelo governo, e com as autoridades do país.

“Somos apenas parte da infraestrutura de proteção ao consumidor, mas somos um elo importante entre consumidores e empresas”, disse Zhang Xu, porta-voz da associação, em Tianjin.

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