Crise empurra muitos cariocas para o mercado de fornecimento de refeições

25 de junho de 2017

Paola Lucas

– Muitas vezes venda é feita livremente nas ruas. De acordo com a Associação Brasileira de Indústria de Alimentação, no ano passado, o setor de food service, como as quentinhas, faturou R$ 154 bilhões –

Rio – Impressiona a quantidade de vendedores de quentinhas nas ruas do Rio. Seja em carros parados em pontos estratégicos, como próximo a aeroportos e grandes concentrações de comércios, ou nas bicicletas e motos que fazem o delivery, o Rio é das quentinhas! E foi essa a alternativa que cariocas encontraram para fechar o mês no azul e driblar a crise. Atualmente no Rio chega a 1,2 milhão o número de pessoas em busca de uma oportunidade de emprego, como informou a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) divulgada em maio, pelo IBGE.

Matheus agradece a preferência dos seus clientes e até oferece cartão fidelidade para cativar a clientela. Rafael%2C que almoça sempre na rua%2C aprovou o tempero e já virou cliente

Matheus agradece a preferência dos seus clientes e até oferece cartão fidelidade para cativar a clientela. Rafael%2C que almoça sempre na rua%2C aprovou o tempero e já virou cliente

Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia

Quando ficou desempregado, Matheus Amorim, de 22 anos, virou motorista da Uber, mas com o tempo encontrou um ramo mais lucrativo: vender quentinhas. “Eu rodava pelo Rio e parava aqui (próximo ao Aeroporto Santos Dumont) para comer a quentinha que o pessoal vende e percebi que o negócio era bom”, disse o morador de Niterói, que está no ponto há 15 dias. Ele faturou entre R$ 1,5 mil a R$ 2 mil nas primeiras semanas — os pratos custam R$ 12.

Já Camila Martins tem 28 anos e há três se dedica, junto com a mãe, Rosângela e a avó Ester Bezerra, garantindo o almoço fresquinho de boa parte da Zona Sul e Centro da cidade. Dona Ester tem 80 anos e cozinha desde jovem. Hoje, dá nome ao negócio: ‘Quentinha da Vovó’.

“Tive a oportunidade de abrir essa cozinha e apostamos. Nosso público era de funcionários das obras na cidade, mas eles praticamente não existem mais. Hoje atendemos escritórios, equipes de set de filmagem e os clientes que pedem em casa. Alguns idosos pedem com a gente”, explica Camila.

Camila tem todo o cuidado na hora do preparo das quentinhas e não perde o ‘timming’ para não atrasar

Camila tem todo o cuidado na hora do preparo das quentinhas e não perde o ‘timming’ para não atrasar

Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia

Para quem pensa em investir nas quentinhas, a Secretaria de Vigilância Sanitária oferece cursos gratuitos de ‘Noções básicas de higiene para manipuladores de alimentos’. A próxima aula é na terça-feira, das 14h às 17h, no auditório da unidade (Rua do Lavradio 180, 6º andar, Centro).

Responsável pelo curso, Marissol Figueiredo explica que serão ensinadas boas práticas para diminuir a ocorrência das doenças transmitidas pela comida. “O ideal é consumir imediatamente após o preparo da refeição. Manter em temperatura ambiente é um risco. O ideal é manter quente, acima de 60°C, ou resfriado, abaixo de 5°C, temperatura média da geladeira”, esclarece Marissol.

A Coordenadoria de Gestão de Espaços Urbanos (Cgeu) explica que toda atividade comercial exercida em área pública deve ser regularizada junto à prefeitura e aos órgãos responsáveis. Em nota, esclarece que “durante rotina fiscal ou em atendimento a chamados 1746 e denúncias, quem for pego comercializando quentinhas em áreas públicas poderá ter sua mercadoria apreendida e descartada”.

Mesmo com queda nas vendas em três anos%2C de 120 para 74 por dia%2C Carla mantém o negócio com o marido

Mesmo com queda nas vendas em três anos%2C de 120 para 74 por dia%2C Carla mantém o negócio com o marido

Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia

Mercado de food service vem crescendo desde 2015

A produção da Quentinha da Vovó começa cedo. Às 5h já estão avó, mãe, filha e as ajudantes, preparando as refeições. Às 10h já sai a primeira leva com o motoboy. Para preparar as cerca de 100 quentinhas que distribui por dia, Camila estima usar de 25 a 30 quilos de arroz e aproximadamente 12 de feijão. “Os legumes e carnes nós compramos frescos, todo dia. A quentinha, bem servida, do negócio feito em família custa de R$ 15 a R$ 17.

De acordo com a Associação Brasileira de Indústria de Alimentação, no ano passado, o setor de food service — alimentos para consumo imediato —, como as quentinhas, faturou R$ 154 bilhões, com crescimento de 7,1% em comparação com 2015. 

Veterana reclama de concorrência e cliente já quer virar fornecedor

Foi a primeira vez que o músico e motorista da Uber, Rafael Chaves, experimentou a quentinha que Matheus Amorim vende próximo ao Santos Dumont. A comida é bem temperada, o preço justo e tem até cartão fidelidade que dá direito a uma quentinha grátis ao completar 10 refeições, avaliou. O motorista pretende voltar e até pensa em empreender também. “A Uber não tem dado mais tanto lucro, estou pensando em entrar nesse ramo de comida, vender doce ou salgados assados… Quem sabe?”, disse, animado.

Em contrapartida, Carla Ferreira, de 48 anos, já está neste mesmo ponto há seis anos e percebe os efeitos da concorrência. “Vendia 120 quentinhas por dia. Hoje batalho para vender 74. Éramos três vendedores quando comecei. Hoje tem uns 20 na redondeza”, conta Carla, que é formada em Administração e sem emprego formal desde 2001.

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