Centenas de baianos se despedem de Gaspar Sadoc

24 de setembro de 2016

Centenas de baianos deram adeus ontem ao Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade, que morreu aos 100 anos na noite da última quinta-feira, 22, em sua residência, no bairro da Vitória, depois de se sentir mal por volta das 20h30. A despedida do religioso por parte da comunidade católica ocorreu com várias missas durante velório na Igreja de Nossa Senhora da Vitória, onde ele passou a maior parte da sua vida pregando e conquistando o coração de milhares de fiéis por sua oratória, bondade, e generosidade. Às 15 horas foi realizada a Missa Solene, celebrada por Dom Murilo Krieger, Bispo Primaz do Brasil, para depois o caixão, conduzido por cadetes da Polícia Militar, deixar o templo sagrado sob aplausos e seguir, em cortejo acompanhado por familiares, amigos e admiradores, até o Cemitério do Campo Santo.

 “Setenta e cinco anos como sacerdote, conquistando pessoas não para si, embora tenha feito muitos amigos com isso, mas para Deus. Ele veio nos mostrar que vale a pena depositar a nossa vida em valores que não passam. Eu tenho certeza que o Senhor está alegre em acolhê-lo, e que vai derramar muitas bênçãos para nós por causa da fidelidade deste seu filho”, declarou, na oportunidade, Dom Murilo Krieger, que na tarde anterior havia visitado o sacerdote amigo. “Ele viveu e trabalhou incansavelmente pelo Reino de Deus e que, nos últimos anos de sua vida, fez de seu leito o seu altar”, acrescentou o Arcebispo deSão Salvador da Bahia. 

 “Nós sentimos a sua partida, mas ao mesmo tempo uma alegria muito grande porque o Céu recebe hoje um grande homem, um ser humano iluminado. Padre Sadoc foi um presente de Deus pra Bahia, pra nossa arquidiocese uma referência de cidadão, cristão, sacerdote e de pastor. Eu tinha com ele um relacionamento de filho”, enfatizou o padre Edson Menezes, após celebrar uma missa matinal. A sobrinha de Irmã Dulce, Maria Rita, que acompanhou a missa, também se manifestou à Tribuna:

“Uma perda grande para todos nós, religiosos, e pra toda a Bahia. Ele era uma pessoa muito querida, muito boa, um exemplo. Mesmo na sua limitação nos últimos anos, ele conseguia passar uma palavra de amor, de força pra todos nós. Fica essa saudade, sabendo que hoje nós temos mais um intercessor, lá no Cèu, pra pedir por todos nós”.  

Quem também acompanhou a Missa Solene foi o prefeito de Salvador, ACM Neto, que falou para a Tribuna sobre a estreita relação de sua família com Padre Gaspar Sadoc: “Eu era criança e vindo aqui às celebrações do Padre Sadoc. Ele tinha uma relação de uma vida inteira com meu avô, Antonio Carlos, e com a minha avó Arlete. Foi um dos melhores amigos que meu avô teve em sua vida. Sadoc, além de tudo, tinha uma capacidade de tocar no coração das pessoas, única, com as suas palavras. Talvez um dos maiores oradores sacros da história da Bahia. Mas o que fica é o seu exemplo de fé e é exatamente este homem tão bom que ele foi, não só para comunidade católica, mas pra toda a Bahia. A gente vem aqui trazer esta última homenagem pra o Padre Sadoc, muito emocionado e com recordações muito intensas da sua vida e dos seus exemplos”, declarou.  

Ainda na Igreja da Vitória, enquanto missas eram celebradas e corbélias  de flores chegavam para decorar o ambiente, o artista plástico Dimas Artes pintava um quadro retratando o rosto sereno de Padre Sadoc. “Ele é um sacerdote da igreja e, com isso, eu acredito que aonde quer que ele esteja se sentirá muito bem, ao saber que eu estou fazendo, de forma plena, um trabalho que tem como fonte de inspiração Deus”, declarou. “Ele fez batizado, comunhão, aniversário, meu marido foi médico dele, convivemos com ele”, disse a senhora Tânia Lessa, amiga que ofereceu flores em nome da família. 

Missa de 7º dia será nesta quarta na Paróquia da Vitória

“Vamos sentir muita saudade, muita falta. Era um irmão muito bom, mas a gente tem que se conformar com a vontade de Deus”, comentou a caçula da família Natividade, dona Suzana, 86, ao se referir ao parente querido. “Eu tinha uma relação com ele muito afetiva, familiar. Além de um grande orador sacro, ele tinha uma função social muito grande em todas as paróquias onde trabalhou. É um momento de tristeza e também de saudades, em saber que o padre Sadoc descansou”, disse à Tribuna o médico e político Heraldo Rocha. “Tive o privilégio de desfrutar de sua convivência e de sua amizade e sinto realmente muito a perda deste guerreiro de Deus, que com a sua suavidade e eloquência nunca transigiu na defesa da fé”, pontuou o advogado Fernando Schimidt. 

Detentor de uma amizade de 50 anos com Padre Sadoc, o empresário Claudelino Miranda ressaltou que o amigo não deixou um substituto. “Nem um mínimo que seja. Mas Deus sabe o que faz. Fica a nossa saudade, o nosso afeto, a nossa estima”, enfatizou emocionado. Para outro amigo do saudoso sacerdote da igreja católica, Walter Pinheiro, presidente da Tribuna e da ABI (Associação Baiana de Imprensa), destacou o quanto importante foi o trabalho social a que se dedicou Monsenhor Sadoc, acrescentando que como orientador espiritual  “influenciou no apoio e solidariedade inúmeras pessoas que eram seus seguidores, independentemente de classe social. De uma maneira incrível ele conseguiu ter uma ascendência e ativar os movimentos religiosos. Era considerado o maior orador sacro do Brasil e, acima de tudo, tinha o respeito e a crença da sua comunidade, procurando confortar a todos em momentos de dor. Ele cumpriu a sua missão”.        

Em nota o governador Rui Costa lamentou a morte do Monsenhor Gaspar Sadoc.”Perdemos  Monsenhor Gaspar Sadoc, religioso referência para o catolicismo na Bahia. Dedicou ao próximo a maior parte de seus cem anos de vida. Foi no bairro onde nasci, a Liberdade, que Gaspar Sadoc iniciou sua vocação e na Vitória, consolidou um forte trabalho social – Centro Médico Odontológico, creche, feira da fraternidade e uma casa para abrigar padres enfermos. Monsenhor faz parte da cultura de nosso estado, soube levar aos fiéis a importância do respeito à religião do outro. Sua sabedoria, em 100 anos de vida, muito nos ensinou. Gaspar Sadoc deixará saudades”.

Nascido em Santo Amaro da Purificação, Padre Sadoc começou no Seminário de Santa Tereza [atual Museu de Arte Sacra], quando ainda tinha 12 anos. Depois de ordenado, em 1941, foi o primeiro vigário da Paróquia de São Cosme e São Damião, no bairro da Liberdade. A partir de 1951, atuou na paróquia de Cristo Rei e São Judas Tadeu, na Baixa de Quintas, onde foi um dos responsáveis pela construção do templo, e, por fim, foi para a Paróquia de Nossa Senhora da Vitória, onde atuou de 1968 até 2002 e tem o título de pároco emérito.

Foi lá que o padre Sadoc ampliou e consolidou o trabalho social com a instalação do Centro Médico-Odontológico Esmeralda da Natividade [em homenagem à sua mãe], a criação da Feira da Fraternidade, da Creche-escola Nossa Senhora da Vitória e também da Casa dos Padres, para amparar sacerdotes enfermos. Ele era membro da Academia de Letras da Bahia. Após um problema na coluna, perdeu movimentos dos braços e das pernas, mas continuou comparecendo às celebrações. Aos 100 anos, recebeu benção apostólica enviada pelo Papa Francisco e foi publicado um livro com pensamentos do religioso. Na próxima quarta-feira, às 19 horas, na Igreja da Vitória, será celebrada a Missa de Sétimo Dia dedicado ao Monsenhor Padre Gaspar Sadoc da Natividade. 

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