Caps mudou vida de paciente que chegou a parar na rua

Por muito tempo, Cleidson Oliveira sentiu profundamente as agruras que uma pessoa com dependência de álcool ou de outras drogas enfrenta ao não encontrar um espaço que a acolha. Ele permaneceu por um período em situação de rua e esbarrou em diversos problemas.

O primeiro momento em que topou com a psicóloga que o fez descobrir que a psicoterapia, algo que ele julgava ser um tratamento que “só quem usava era louco”, consiste em uma ferramenta capaz de aliviar diversos tipos de sofrimentos psíquicos foi dentro do Poder Judiciário.

Nessa esfera, ele respondia a um processo. “Menti o máximo que pude. Tinha medo daquelas perguntas todas”, disse, rindo, em um evento na última quinta-feira (16) na Universidade de Brasília (UnB), por ocasião do Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

A vida seguiu, o processo judicial acabou, e Cleidson era confrontado por novos desafios, de cunho amoroso. Tomado pela tristeza diante do término de um relacionamento romântico e sem espaço para dar vazão às emoções, teve uma recaída no uso abusivo de álcool e de outros entorpecentes, desestabilizando seu cotidiano.

Acabou nas ruas, pedindo esmolas e buscando alimento em meio ao lixo, até que uma equipe do governo apresentou a ele o serviço do Centro de Atenção Psicossocial (Caps), e ele começou a restabelecer-se psicologicamente. “Eu gostei, porque o Caps não me prendia. Eu podia ir e vir e, às vezes, quando eu caía ou oscilava, as meninas não me davam bronca igual à minha família fazia, não me xingavam, não diziam que eu não tinha jeito, que eu não prestava. Não falam aquelas palavras que geralmente as pessoas falam, por não entender por que a pessoa tá sofrendo. Então, eu falava, rapaz, essas pessoas não desistem de mim”, relatou. “Fui seguindo o tratamento, fui tratado como nunca fui tratado antes.”

Negro, Cleidson afirma que chegou a sofrer diversas agressões, inclusive físicas e em locais públicos, o que o abalou muito. “Essa psicóloga, encontrei no Caps, anos depois. Naquela ocasião, eu estava disposto mesmo a me cuidar, a cuidar da minha saúde. A primeira vez em que eu falei tudo de mim, tirei aquela coisa ruim dentro de mim, que carregava há anos. Senti um vazio, ela ouvindo tudo e não me julgou, ainda me orientou. Eu não ficava preocupado com o que ela estava anotando. Foi aí que percebi o trabalho do psicólogo, a atenção que eles têm com a gente, o carinho”, disse.

Atualmente, Cleidson é facilitador no movimento Pró-Saúde Mental DF, com a função de combater a desinformação sobre a psiquiatria e a psicologia e explicar a importância de ambas as áreas na vida das pessoas em geral. Em suas abordagens, ele demonstra a pessoas em situação de rua de que forma esses conhecimentos podem contribuir para a melhora de quadros de transtornos mentais, como ansiedade, esquizofrenia e transtorno obsessivo-compulsivo.

Cleidson afirma que já recebeu tratamento em comunidades terapêuticas, que oferecem cuidados e residência transitória a dependentes químicos. Ele, no entanto, vê esses locais como “creches” e declara ser favorável ao modelo desenvolvido no Caps, que teve a primeira unidade inaugurada em 1986, em São Paulo. “A liberdade é terapêutica”, declara.

Companheira de Cleidson no projeto Pró-Saúde Mental DF, a enfermeira e mestranda em Saúde Coletiva Andressa Ferrari diz que o trabalho do Caps vigora quando os profissionais se comprometem de fato. “Me incomoda muito que profissionais cheguem ao Caps com seu diploma e não simplifiquem suas práticas”, afirma. “O que adoece é uma política pública não efetivada.”

Orçamento

De acordo com o Ministério da Saúde, o orçamento previsto para a saúde mental neste ano está em torno de R$ 1,6 bilhão. A assessoria de imprensa da pasta informou que, em relação ao ano passado, houve um incremento de R$ 153 milhões para as ações da Rede de Atenção Psicossocial (Raps).

O valor cobrirá 2.589 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), 626 Serviços Residencial Terapêutico (SRTs Tipo I e II), 59 Unidades de Acolhimento (adulto e infanto-juvenil) e Enfermarias Especializadas em Hospital Geral. Também ficam contemplados pela mesma rubrica orçamentária 1.492 leitos do Sistema do Sistema Único de Saúde (SUS) em hospital geral, 3.163 leitos SUS em hospitais psiquiátricos, Hospital-Dia, serviços de Atenção Básica, Urgência e Emergência, comunidades terapêuticas e Ambulatório Multiprofissional de Saúde Mental.

Hospitais psiquiátricos

O psiquiatra Marcelo Caixeta atua há 33 anos em um ambiente diferente do Caps, o Hospital Asmigo (http://hospitalasmigo.com), em Goiânia. Entrevistado pela Agência Brasil, ele afirmou que o movimento antimanicomial do Brasil aproveita a onda “libertária e menos autoritária” que predomina no mundo e que há, por detrás dele, “um esquerdismo”.

Caixeta disse que a instituição, fundada por ele com um grupo de mães, antes compunha a rede do SUS e agora faz atendimentos particulares ou por convênio médico. A mudança, segundo ele, fez com que já tivesse que pagar, em alguns meses, de R$ 30 mil a R$ 40 mil do próprio bolso para quitar despesas do hospital.

Ele diz que o hospital se guia por uma “política humanista-cristã”, que valoriza o contato com o paciente, a perspectiva da caridade e o desenvolvimento da compaixão, da devoção e do interesse pelo outro. Caixeta assume que os pacientes, majoritariamente, vêm por internação involuntária, por chegarem “com risco de suicídio, de homicídio, convulsões, demência, estado de confusão mental e delírio”.

“Não posso dizer com certeza, mas quase 100% dos nossos pacientes, pelo menos aqui no nosso hospital ou como deveria funcionar em um hospital adequado, estão tão graves que não tem como dar consentimento. Eles não entendem o que você está perguntando, não têm condições de definir, estão confusos, dementes, alucinando, delirando, impulsivos. Não dão conta de definir o que é consentimento ou não. Isso é um bom hospital, repito, como deveria ser. Não estou dizendo que isso é em todo hospital, não, porque eu estou tomando a briga dos hospitais do Brasil inteiro, como deveria ser. Onde estudei, na França, é assim, aqui no nosso hospital é assim”, declarou.

Caixeta completou dizendo que, caso uma pessoa recuse a internação e seus familiares insistam no procedimento, ele notifica ao Ministério Público que “tem um paciente aqui que está internado de modo involuntário. “Pronto, só isso. Normalmente, o Ministério Público pede, em alguns casos, não todos – essa é a nossa experiência aqui – um relatório perguntando o que aconteceu, por quanto tempo ficou internado, qual o motivo e tal. É assim que funciona”, emenda.

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