Asanas globais

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– Muitos indianos se mostram inconformados com a apropriação da Ioga pelos ocidentais, que, para eles, a teriam reduzido a meros exercícios para emagrecer –

A Índia insistiu e a ONU aceitou: o 21 de junho, que cairá no domingo, transformou-se no Dia Internacional da Ioga. O governo do primeiro-ministro Narendra Modi não perdeu tempo em promover uma das grandes contribuições da antiga civilização indiana ao mundo. A prática milenar que tomou conta do Ocidente transformou-se em um dos maiores instrumentos do chamado “soft power”, ou o “poder brando” (aquele que não é exercido pela força) do país. A Índia é rica nisso. Já conta com Bollywood (a sua gigantesca indústria cinematográfica) e a sua culinária picante para reforçar a sua imagem global.

A ioga chegou a ser até mesmo um dos temas da visita de Estado recente de Modi à China e Coreia do Sul. O texto mais importante sobre o assunto, o Ioga Sutra, foi provavelmente escrito pelo sábio Patanjali há dois mil anos. Tradicionalmente, na Índia, Ioga não significa só exercícios físicos, mas um estilo de vida que inclui dieta vegetariana e meditação diária. É a união da mente com o corpo, um meio para alcançar a iluminação espiritual. Muitos indianos se mostram inconformados com a apropriação da técnica pelos ocidentais, que, para eles, a teriam reduzido a meros exercícios para emagrecer.

Em 2010 o governo indiano anunciou que iria proteger o seu patrimônio patenteando cerca de mil posturas. Isso porque muitos gurus no exterior passaram a registrar patentes das asanas. Cientistas e pesquisadores indianos gravaram em vídeos centenas de posturas e técnicas originadas na Índia para que passassem a ser reconhecidas como propriedade pública do país. A campanha para preservar as raízes da ioga começou depois que Bikram Choudhury, famoso instrutor de origem indiana, queridinho de Hollywood, registrou a patente de sua ioga Bikram em 2002: a hot ioga. É um extenuante exercício a uma temperatura de 40 graus. Entre suas clientes estavam Madonna e Shirley MacLaine.

Apesar de muitos terem uma imagem de que os indianos são todos os iogues contorcionistas, isso está longe da realidade. A ressurreição moderna da prática no país foi resultado de um movimento global, após ter migrado para os EUA no século 19. Naquela época, a ioga era malvista pelos americanos, associada com promiscuidade sexual. Chegou a ser tratada como “fraude criminosa” e “prática abominável” contra a pureza das mulheres americanas. Há 70 anos, o mestre B.K.S. Iyengar (ou Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar) foi um dos grandes responsáveis pela onda moderna de ioga, tendo convertido famosos como o violinista Yehudi Menuhin e o escritor Aldous Huxley. Até o Vaticano o teria abordado para ensinar ioga por lá. Sua técnica era única, com ajuda de cordas e cintos para facilitar a prática. Sua história é de superação e só reforça os benefícios da prática: nascido em uma família pobre, ele era uma criança doente, que sofria de tifoide e tuberculose.

Quando adolescente descobriu que poderia melhorar sua saúde com a ioga. Viveu até os 95 anos, morrendo no ano passado. Iyengar frequentemente explicava que a ioga não tinha nada a ver com o Hinduísmo. Era uma forma de melhorar a respiração, a concentração e de meditação. Na Índia, a aproximação do Dia Internacional da Ioga foi acompanhada de uma polêmica entre grupos religiosos, muito comum na maior democracia do mundo, onde a fé é um assunto explosivo.

Muçulmanos e cristãos se disseram incomodados com o envolvimento do governo na promoção de uma prática que lhes parece mesclada com o Hinduísmo. Para acalmar os ânimos, o governo avisou que ninguém precisa repetir o “om” (som sagrado para os hindus) ou fazer as tradicionais saudações ao sol, o Surya Namastê, que os muçulmanos, por exemplo, dizem violar a natureza monoteística de sua religião. Os adeptos do Islamismo, a segunda religião do país, poderiam repetir o nome de Alá durante a prática, se assim o quiserem, avisou o governo.

A exportação da ioga teve tanto sucesso que a Índia hoje quer lembrar um fato que muitas vezes se esquece: o de que este foi um presente de sua antiga civilização. O Dia Internacional da Ioga será observado em mais de 251 cidades de 191 países em todo o mundo, envolvendo as missões diplomáticas indianas. Assim, no domingo, multidões na Índia e em vários países vão encenar as asanas nos espaços públicos. Durante 35 minutos cerca de 30 mil pessoas, incluindo servidores públicos, vão fazer uma aula no coração de Nova Délhi. Em São Paulo, a celebração ocorrerá no Ginásio do Sesc Vila Mariana, liderada pelo embaixador indiano no Brasil, Sunil Kumar Lal. Modi não foi o primeiro governante a promover a ioga. A ex-primeira-ministra Indira Gandhi era tão devota que tinha um instrutor, Dhirendra Brahmachari, que a acompanhava quando viajava, e ganhou o apelido de “guru voador”. No fim dos anos 70, ele se transformou no primeiro teleguru de ioga do país e a prática foi incluída no currículo escolar. A prática conseguiu até mesmo romper as muralhas do Kremlin. Os soviéticos, que desconfiavam da “espiritualidade da ioga”, acabaram convidando o guru a Moscou para dar aulas a astronautas. A ioga foi globalizada.

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