Acordo entre UFRJ e BNDES dará novo papel cultural ao Canecão

17 de julho de 2018

Um acordo entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) permitirá a transformação do prédio da antiga casa de shows Canecão, em Botafogo, em um novo espaço cultural no Rio de Janeiro. O prédio pertence à UFRJ.

A casa foi palco de grandes espetáculos musicais, com nomes brasileiros como Ellis Regina, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Maria Bethânia, e muitos estrangeiros, entre os quais os cantores norte-americanos Tony Bennett e James Taylor e a banda britânica Black Sabbath.

O mural gigante Última Ceia, pintado em 1967 por Ziraldo, que estava encoberto na antiga casa de show Canecão, será restaurado pela UFRJ e aberto à visitação pública a partir de abril (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Casa abriga mural A Última Ceia, pintado em 1967 pelo cartunista Ziraldo, que passa por restauração (Arquivo/Agência Brasil)

O projeto que envolve o Canecão “é muito amplo e ambicioso”, disse hoje (17) à Agência Brasil o reitor da UFRJ, Roberto Leher. Pelo acordo, caberá ao BNDES avaliar os ativos universitários, entre os quais o Canecão, um espaço de elevado valor econômico e simbólico para a cidade.

Outras áreas que também serão avaliadas localizam-se na Urca, zona sul, na Ilha do Fundão, zona norte; e na região central da cidade. É o caso do prédio onde funcionou a Escola de Comunicação (ECO) da universidade, posteriormente transferida para a Urca. Cedido ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que não teve recursos para promover sua reforma, o prédio acabou sendo retomado pela UFRJ.

“O BNDES vai providenciar com firmas de consultoria a avaliação de tais ativos para que a universidade possa estudar eventuais concessões dessas áreas com uma modelagem original, inclusive para o banco”, informou Leher. O ineditismo é explicado porque as contrapartidas não serão na forma monetária. “Serão contrapartidas de investimentos”, explicou o reitor.

Quem ganhar a licitação investirá na construção de moradias estudantis, uma vez que um quarto dos estudantes da UFRJ vêm de outras cidades e estados, na melhoria da estrutura de alimentação e na conclusão de obras na Cidade Universitária, como os prédios destinados às áreas de educação e saúde e o Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas.

Leher lembrou que a UFRJ, que tinha na Lei Orçamentária R$ 55 milhões para investimentos, como construção de prédios e compra de equipamentos, hoje dispõe de apenas R$ 6 milhões.

Contrapartida

No caso do Canecão, a universidade receberá, em contrapartida, um novo espaço cultural que vai ocupar área importante para a história da cultura e da música popular brasileira (MPB). “Queremos levar adiante essa tradição simbólica da MPB e de [revelação de] novas expressões musicais, como foi o caso do Canecão.” Na casa, surgiram artistas que depois ganharam muita visibilidade, destacou o reitor. Ele ressaltou que, hoje, os espaços de maior porte do Rio são voltados, de forma geral, para artistas já conhecidos.

Além disso, terão espaço novas linguagens musicais, teatrais e de dança. Ainda não há muitos detalhes, porque o projeto final dependerá do volume de recursos obtidos pela UFRJ com a concessão de uma área na Praia Vermelha. No entanto, já existem conceitos estabelecidos, pois a universidade e o BNDES trabalham há cerca de um ano nessa forma nova de modelagem em que não se prevê recebimento de recursos. Isso significa que a universidade receberá do vencedor da licitação o espaço novo inteiramente concluído.

Leher destacou que a avaliação da área do Canecão deverá ser muito ousada. “Queremos apresentar [o projeto] na China, na Europa e nos Estados Unidos, para que haja investidores que tenham de fato capacidade financeira para as contrapartidas para a UFRJ e para a cidade do Rio de Janeiro.”

As discussões com o BNDES preveem ainda uma modelagem de funcionamento para o antigo Canecão que permita à universidade captar recursos. O centro cultural receberá concertos e shows, “e isso vai capitalizar” a casa. Estudos do banco estimam em cerca de R$ 2 milhões por ano os recursos necessários para manter “pulsante” o espaço cultural. Pelo projeto, a casa deve ser autossuficiente, capaz de se autocustear, e as receitas obtidas com seu uso, precisam garantir o fortalecimento da área cultural da universidade.

O reitor destacou a desigualdade no financiamento para pesquisa, desenvolvimento científico, cultural e artístico. Segundo Leher, algumas áreas têm mais oferta de recursos, enquanto as de cultura e artes são pouco contempladas em termos orçamentários.

*Colaborou Joana Moscatelli, do Radiojornalismo da EBC

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