44,8% das gestantes escondem dos médicos que estão consumindo álcool

Pesquisa inédita realizada pela Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), com apoio da Marjan Farma, conclui que 22,7% dos médicos pré-natalistas entrevistados aceitam a ingestão de até uma taça de vinho por gestante.

No caso dos drinques com teor alcoólico mais elevado, 4,5% não contraindicam, desde que no limite de duas doses.

Tal postura evidencia a desinformação quanto aos riscos da exposição pré-natal a qualquer tipo e quantidade de bebida alcoólica, podendo acarretar a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).
 
O levantamento ainda aponta outro sério problema na relação médico-paciente, considerando que 44,8% dos especialistas alegam que as mulheres não os informam se estão consumindo álcool durante a gestação.
 
Estudo divulgado hoje, em 23 de setembro, durante ação da Campanha #gravidezsemalcool, confirma a pertinência de um processo intenso e permanente de conscientização à sociedade e aos médicos.
 
Este é o mote da iniciativa da SPSP, que visa alertar às futuras mães sobre os riscos da ingestão de álcool durante a gravidez para o feto e à criança. Entre as manifestações, podem ocorrer malformações congênitas faciais, neurológicas, cardíacas e renais, além de alterações comportamentais.
 
Ao todo, foram ouvidos 1.115 médicos pré-natalistas, atuantes nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, entre 25 de abril e 20 de maio de 2016. Ginecologia-obstetrícia é a principal área de atuação dos entrevistados (92,5%); quanto ao sistema em que trabalham, a maioria pertence à rede privada (49,8%) – apenas 3,4% dedicam-se somente à saúde pública; 46,8% estão presentes em ambos.
 
“Os dados obtidos apontam à necessidade de investirmos continuamente na ampla divulgação entre especialistas, ação já realizada pela SPSP e a Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo (SOGESP), uma das parceiras na Campanha #gravidezsemalcool. Para corroborar com esta empreitada, também precisamos da aprovação de leis que institucionalizem campanhas permanentes de esclarecimento e informação a respeito ingestão de qualquer dose de álcool durante a gravidez”, afirma Claudio Barsanti, presidente da SPSP.
 
A Campanha #gravidezsemalcool conta com apoio institucional da Marjan Farma, com cooperação da SOGESP, Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, Academia Brasileira de Neurologia, Associação Paulista de Medicina e Associação Brasileira das Mulheres Médicas- Seção São Paulo. 
 
Sobre a SAF

A exposição pré-natal a qualquer tipo e quantidade de bebida alcoólica pode acarretar problemas graves e irreversíveis ao bebê. Eles podem revelar-se logo ao nascimento ou mais tardiamente e perpetuam-se pelo resto da vida.
 
Contabiliza, mundialmente, de 1 a 3 casos por 1000 nascidos vivos. No Brasil não há dados oficiais do que ocorre de norte a sul sobre a afecção; entretanto, existem números de universos específicos.
 
Para ter uma ideia, no Maternidade Escola de Vila Nova Cachoeirinha, um estudo com 2 mil futuras mamães apontou que 33% bebiam mesmo esperando um bebê. O mais grave: 22% consumiram álcool até o dia de dar à luz.
 
“É fundamental ressaltar que o melhor caminho é realmente a prevenção” completa a Dra. Conceição Aparecida de Mattos Ségre, coordenadora do Grupo de Prevenção dos Efeitos do Álcool na Gestante, no Feto e no Recém-Nascido da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). “Não há qualquer comprovação de uma quantidade segura de bebida alcoólica que proteja a criança de qualquer risco. Neste caso, a gestante ou a mulher que pretende engravidar deve optar por tolerância zero à bebida alcoólica”.
 
Características

O conjunto de efeitos decorrentes do consumo de álcool, em qualquer dosagem ou período da gravidez, é chamado de “espectro de distúrbios fetais relacionados ao álcool”, que inclui a SAF.

A frequência dessas complicações varia conforme estado nutricional da gestante, genética e até mesmo a quantidade ingerida. Isso não significa que todos os bebês expostos serão afetados, mas a probabilidade é alta.
 
“Bebês com SAF têm alterações bastantes características na face, as chamadas dismorfias faciais. Além disso, faz parte do quadro o baixo peso ao nascer devido à restrição de crescimento intrauterino, e o comprometimento do sistema nervoso central. Essas são as características básicas para o diagnóstico no período neonatal”, comenta o presidente da SPSP.
 
No decorrer do desenvolvimento infantil, o dismorfismo facial atenua-se, o que dificulta o diagnóstico tardio. Permanece o retardo mental (QI médio varia de 60 a 70), problemas motores, de aprendizagem (principalmente matemática), memória, fala, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, entre outros.

Adolescentes e adultos demonstram problemas de saúde mental em 95% dos casos, como pendências com a lei (60%); comportamento sexual inadequado (52%) e dificuldades com o emprego (70%).
 
Diagnóstico e tratamento

Em São Paulo, o Grupo da SPSP cria ações para conscientizar os pediatras, com distribuição de material em eventos científicos, publicações disponíveis na internet aos associados da SPSP e cursos voltados para equipes multidisciplinares de capacitação para reconhecimento e condutas nesses casos.
 
Nos Estados Unidos e Canadá, existe um teste que identifica produtos do álcool no mecônio ou cabelo do recém-nascido. É uma técnica de alto custo, que ainda não está disponível no Brasil.
 
“Vale lembrar que os efeitos do álcool ocasionados pela ingestão materna de bebidas alcoólicas durante a gestação não têm cura, por isso vale a máxima: o quanto antes parar, melhor para o bebê, sua família e a sociedade. O diagnóstico precoce da doença e a instituição de tratamento multidisciplinar ainda na primeira infância podem abrandar suas manifestações”, completa a médica.


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